terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O Silêncio

Nós os índios, conhecemos o silêncio. Não temos medo dele.
Na verdade, para nós ele é mais poderoso do que as palavras.
Nossos ancestrais foram educados nas maneiras do silêncio e eles
nos transmitiram esse conhecimento.
"Observa, escuta, e logo atua", nos diziam.
Esta é a maneira correta de viver.
Observa os animais para ver como cuidam se seus filhotes.
Observa os anciões para ver como se comportam.
Observa o homem branco para ver o que querem.
Sempre observa primeiro, com o coração e a mente quietos,
e então aprenderás.
Quanto tiveres observado o suficiente, então poderás atuar.
Com vocês, brancos, é o contrário. Vocês aprendem falando.
Dão prêmios às crianças que falam mais na escola.
Em suas festas, todos tratam de falar.
No trabalho estão sempre tendo reuniões
nas quais todos interrompem a todos,
e todos falam cinco, dez, cem vezes.
E chamam isso de "resolver um problema".
Quando estão numa habitação e há silêncio, ficam nervosos.
Precisam preencher o espaço com sons.
Então, falam compulsivamente, mesmo antes de saber o que vão dizer.
Vocês gostam de discutir.
Nem sequer permitem que o outro termine uma frase.
Sempre interrompem.
Para nós isso é muito desrespeitoso e muito estúpido, inclusive.
Se começas a falar, eu não vou te interromper.
Te escutarei.
Talvez deixe de escutá-lo se não gostar do que estás dizendo.
Mas não vou interromper-te.
Quando terminares, tomarei minha decisão sobre o que disseste,
mas não te direi se não estou de acordo, a menos que seja importante.
Do contrário, simplesmente ficarei calado e me afastarei.
Terás dito o que preciso saber.
Não há mais nada a dizer.
Mas isso não é suficiente para a maioria de vocês.
Deveríamos pensar nas suas palavras como se fossem sementes.
Deveriam plantá-las, e permiti-las crescer em silêncio.
Nossos ancestrais nos ensinaram que a terra está sempre nos falando,
e que devemos ficar em silêncio para escutá-la.
Existem muitas vozes além das nossas.
Muitas vozes.
Só vamos escutá-las em silêncio.

"Neither Wolf nor Dog. On Forgotten Roads with an Indian Elder" - Kent Nerburn

 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012



ALAMBRADO - Jayme Caetano Braun

Como ponteando o progresso,
surgiste um dia alambrado
braço de pinho encordoado
sobre o lombo da coxilha
um moirão de curumilha
cinchando cordas de aço
que foi o seio de laço
da velha raça caudilha

Estendidos na paisagem
como dantesco esqueleto
os teus fios de arame preto
causaram constrangimento
e até o assobio do vento
entre os buracos de puas
encheram o pampa charrua
dum som triste e agourento

E num lamento soturno
que o eco reproduziu
tinindo de fio em fio
esse bárbaro som novo
foi o primeiro retobo
na liturgia das grotas
e deu as primeiras notas
dos funerais do meu povo

Pois quando aqui tu surgiste
qual aparição infame
o guasca com cerca de arame
não conhecia fronteira
e só tinha por barreira
além do rancho pampeano
os arenais do oceano
e as pedras da cordilheira

A velha taipa de pedra
mataste sem compaixão
e a cerca de varejão
também botaste de lado
quanto atalho terminado
de quanto potro de estouro
deixando tiras de couro
no teu arame farpado

Cercaste de corredores
as velhas estradas reais
e nos escampos natais
estirado sem critério
pareces um cemitério
de cruzes enfileiradas
assinalando as ossadas
do velho pago gaudério

Por isso cerca de arame
eu nunca gostei de ti
pois o pago onde nasci
não precisava tapumes
e a prisão que tu resumes
se nos trás prosperidade
quase mata a liberdade
que é lei dos nosso costumes

Mil vezes te desatei
pra ver a china domingo
pois onde meto meu pingo
nunca dou volta por nada
e arrombei muita invernada
cortando e deitando trama
sem jamais respeitar fama
de nenhum venta rasgada

Velho alambrado gaúcho
de três, quatro, sete fios
se nem os cerros e os rios
fugiram da tirania
minha guasca sesmaria
duvido que tu arranques
pois ninguém crava palanques
nesta minha alma bravia!


terça-feira, 13 de novembro de 2012




  Calmo Como a Noite

Calmo como a noite e profundo como o mar, assim deve ser o seu amor! Se você me ama tão profundamente quanto eu te amo, eu quero me fundir em ti! Quente como o aço e sólido como a pedra, assim deve ser o seu amor! 


                                                                                              Carl Bohm

Não Posso Evitar Me Apaixonar Por Você

 
Homens sábios dizem que somente tolos se apressam
Mas eu não consigo evitar de me apaixonar por você
Devo ficar?
Seria um pecado?
Se eu não consigo evitar de me apaixonar por você

Como um rio que corre para o mar
Querida, isso segue
Como as coisas devem ser
Pegue minha mão, pegue minha vida toda também
Pois eu não consigo evitar de me apaixonar por você

Como um rio que corre para o mar
Querida, isso segue
Como as coisas devem ser
Pegue minha mão, pegue minha vida toda também
Pois eu não consigo evitar de me apaixonar por você
Pois eu não consigo evitar de me apaixonar por você
 
                                                                                     
                                                                                     Elvis Presley
 
 



segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Bach: sons que discutem



Cada vez que escuto Bach me surpreendo com algo novo, uma nova dialética de sons, uma nova "discussão" dos sons. Na peça logo a baixo ouvimos duas vozes dialogando como se víssemos dois filósofos parados em uma esquina discutindo sobre os diversos sentidos das coisas, um apresenta sua ideia, já o outro discorda com uma ideia oposta, por vezes parecem chegar a alguma síntese, por vezes voltam a discordar radicalmente, mas ambos carregam a postura de manter o movimento do intelecto ao desconhecido, o encontrar sempre uma nova tortuosidade para fugir ou “puxar o tapete” de seu oposto que discorda, porque a agitação tomou o lugar daquela satisfação da alma sobre as coisas mesmas, aquele “bom repouso” cessou de vez quando se declarou que uma coisa só faria sentido pelo seu oposto.

                                                                              Philip G. Mayer

http://www.youtube.com/watch?v=ZO281MZ3UCk 

J. S. Bach retratado por Elias Gottlob Haussman (1746)






 

domingo, 4 de novembro de 2012

Jô Soares entrevista Itzhak Perlman

Segue abaixo os dois links da apresentação e logo depois da entrevista de um dos maiores violinistas do século XX, Itzhak Perlman no programa do Jô Soares. A lenda do violino que se sabe lenda, Itzhak sabe que é muito bom e por isso mesmo brilha com a sua grandeza até mesmo em uma entrevista, ele não se apequena, ele cultiva o esclarecimento e a autoadmiração como o motor do seu próprio crescimento, de sua própria glória, justamente a mesma admiração a que temos por ele como o grande mago do violino, e ainda assim, depois quando Jô pede a ele que toque o capricho n. 24 de Paganini (aquele típico pedido para tocar uma obra que ficou conhecida pelo seu caráter virtuoso, e que justamente por ter ficado conhecida ela se torna nada mais que um “pedido simples”, mas que não por isso perde sua exigência colossal de performance), Perlman antes de tocar apenas o trecho inicial da peça se dá ao luxo em demonstrar a sua mais completa humanidade em dizer: “ah não, você não me pediu essa, eu tocava essa quando era jovem, vou tocar um trecho do início” e logo depois de tocar então encerra: “pronto, é o máximo que consigo tocar”. Essa entrevista me afirma aquela importância do cultivo de uma autoconfiança no lidar com a música, o delimitar a si próprio o “sabido bom” e então expressá-lo, ou seja, não reprimir essa vontade com vistas no almejar desenvolvê-la em direção a um desconhecido futuro onde a crença do “tudo sempre pode ser melhor” ao invés de beneficiar, leva àquela cegueira em nome de um grande ideal alhures sabe se lá onde esteja adormecido, como aquela princesa que aguarda o beijo do seu príncipe para então despertar do seu sono encantado... – isso pode até valer para a vida, mas para aprender música é catastrófico! Só traz o desnorteio e aquele inevitável desânimo em continuar. Quando vislumbramos um infinito de possibilidades podemos correr o sério risco de covardemente não sairmos do lugar. Aqui vale aquela frase de Nietzsche: “se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti”. Pois bem, na entrevista Perlman desmistifica até aquelas lendas a respeito de si sobre, por exemplo, ter solado um concerto somente com três cordas do violino porque uma tinha arrebentado... Ele mesmo fala que são mentiras criadas para inspirar. E isso tudo desilude o aprendizado da musica? Para mim é bem pelo contrário, justamente nos mostra que a música está muito mais acessível do que pensamos, ela está ali para que todos possam se achegar, ela é feita por seres humanos como nós e para nós objetivando nos gerar prazer, não lamentações. E até o gênio Itzhak Perlman como ser humano uma vez disse: “pronto, é o máximo que consigo tocar”.  

                                                                                    Philip G. Mayer

http://globotv.globo.com/rede-globo/programa-do-jo/v/itzhak-perlman-se-apresenta-na-abertura-do-programa-do-jo/2215483/

http://globotv.globo.com/rede-globo/programa-do-jo/v/itzhak-perlman-e-um-dos-maiores-virtuoses-do-violino/2215527/

    

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Nona Sinfonia de Beethoven: Primeiro Movimento – Angústia em Música!



O mais puro conflito de uma alma humana, a batalha entre moral e natureza, o mais aterrador tormento de um homem culpado pela sua consciência racional e ao mesmo tempo com sua própria natureza o forçando para agir novamente em direção à desaprovação, à culpa! O ciclo mórbido sentido nas profundezas subterrâneas da consciência humana onde as forças incontroláveis da natureza que querem libertar-se são repetidamente comprimidas para dentro da culpa e sempre novamente arremessadas para fora em série de explosões, tudo isso refletindo a desesperada angústia do homem em livrar-se de tamanho tormento psicológico! Esse primeiro movimento da nona sinfonia de Beethoven (juntamente com o quarteto Op. 133 “A Grande Fuga”) para mim é a própria descrição do descompasso cognitivo, o tormento da mente que o compositor surdo devia sofrer minuto por minuto inquieto dentro de si, a fatalidade da sua natureza em desacordo com a sua época, ou talvez olhando mais além, o descompasso em que a própria Europa vinha caminhando já cansada de suas guerras, de seus sofrimentos, e ainda assim sem conseguir vislumbrar um futuro mais harmonioso entre seus povos... No famoso quarto e último movimento da sinfonia tem-se a ode à alegria, o grande hino de esperança sobre a humanidade, mas para que isso ressoasse com a devida glória, nada mal que Ludwig abrisse a sua nona com a mais perfeita descrição em música do desespero humano!

                                                                                Philip G. Mayer



sábado, 27 de outubro de 2012

"Um médico, que me tratou como doente nervoso por longo tempo, disse ao fim: Não! O problema não está em seus nervos, eu mesmo estou apenas nervoso"
 
                                                                                                       F. Nietzsche

trólóló.. !