quinta-feira, 15 de novembro de 2012



ALAMBRADO - Jayme Caetano Braun

Como ponteando o progresso,
surgiste um dia alambrado
braço de pinho encordoado
sobre o lombo da coxilha
um moirão de curumilha
cinchando cordas de aço
que foi o seio de laço
da velha raça caudilha

Estendidos na paisagem
como dantesco esqueleto
os teus fios de arame preto
causaram constrangimento
e até o assobio do vento
entre os buracos de puas
encheram o pampa charrua
dum som triste e agourento

E num lamento soturno
que o eco reproduziu
tinindo de fio em fio
esse bárbaro som novo
foi o primeiro retobo
na liturgia das grotas
e deu as primeiras notas
dos funerais do meu povo

Pois quando aqui tu surgiste
qual aparição infame
o guasca com cerca de arame
não conhecia fronteira
e só tinha por barreira
além do rancho pampeano
os arenais do oceano
e as pedras da cordilheira

A velha taipa de pedra
mataste sem compaixão
e a cerca de varejão
também botaste de lado
quanto atalho terminado
de quanto potro de estouro
deixando tiras de couro
no teu arame farpado

Cercaste de corredores
as velhas estradas reais
e nos escampos natais
estirado sem critério
pareces um cemitério
de cruzes enfileiradas
assinalando as ossadas
do velho pago gaudério

Por isso cerca de arame
eu nunca gostei de ti
pois o pago onde nasci
não precisava tapumes
e a prisão que tu resumes
se nos trás prosperidade
quase mata a liberdade
que é lei dos nosso costumes

Mil vezes te desatei
pra ver a china domingo
pois onde meto meu pingo
nunca dou volta por nada
e arrombei muita invernada
cortando e deitando trama
sem jamais respeitar fama
de nenhum venta rasgada

Velho alambrado gaúcho
de três, quatro, sete fios
se nem os cerros e os rios
fugiram da tirania
minha guasca sesmaria
duvido que tu arranques
pois ninguém crava palanques
nesta minha alma bravia!


terça-feira, 13 de novembro de 2012




  Calmo Como a Noite

Calmo como a noite e profundo como o mar, assim deve ser o seu amor! Se você me ama tão profundamente quanto eu te amo, eu quero me fundir em ti! Quente como o aço e sólido como a pedra, assim deve ser o seu amor! 


                                                                                              Carl Bohm

Não Posso Evitar Me Apaixonar Por Você

 
Homens sábios dizem que somente tolos se apressam
Mas eu não consigo evitar de me apaixonar por você
Devo ficar?
Seria um pecado?
Se eu não consigo evitar de me apaixonar por você

Como um rio que corre para o mar
Querida, isso segue
Como as coisas devem ser
Pegue minha mão, pegue minha vida toda também
Pois eu não consigo evitar de me apaixonar por você

Como um rio que corre para o mar
Querida, isso segue
Como as coisas devem ser
Pegue minha mão, pegue minha vida toda também
Pois eu não consigo evitar de me apaixonar por você
Pois eu não consigo evitar de me apaixonar por você
 
                                                                                     
                                                                                     Elvis Presley
 
 



segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Bach: sons que discutem



Cada vez que escuto Bach me surpreendo com algo novo, uma nova dialética de sons, uma nova "discussão" dos sons. Na peça logo a baixo ouvimos duas vozes dialogando como se víssemos dois filósofos parados em uma esquina discutindo sobre os diversos sentidos das coisas, um apresenta sua ideia, já o outro discorda com uma ideia oposta, por vezes parecem chegar a alguma síntese, por vezes voltam a discordar radicalmente, mas ambos carregam a postura de manter o movimento do intelecto ao desconhecido, o encontrar sempre uma nova tortuosidade para fugir ou “puxar o tapete” de seu oposto que discorda, porque a agitação tomou o lugar daquela satisfação da alma sobre as coisas mesmas, aquele “bom repouso” cessou de vez quando se declarou que uma coisa só faria sentido pelo seu oposto.

                                                                              Philip G. Mayer

http://www.youtube.com/watch?v=ZO281MZ3UCk 

J. S. Bach retratado por Elias Gottlob Haussman (1746)






 

domingo, 4 de novembro de 2012

Jô Soares entrevista Itzhak Perlman

Segue abaixo os dois links da apresentação e logo depois da entrevista de um dos maiores violinistas do século XX, Itzhak Perlman no programa do Jô Soares. A lenda do violino que se sabe lenda, Itzhak sabe que é muito bom e por isso mesmo brilha com a sua grandeza até mesmo em uma entrevista, ele não se apequena, ele cultiva o esclarecimento e a autoadmiração como o motor do seu próprio crescimento, de sua própria glória, justamente a mesma admiração a que temos por ele como o grande mago do violino, e ainda assim, depois quando Jô pede a ele que toque o capricho n. 24 de Paganini (aquele típico pedido para tocar uma obra que ficou conhecida pelo seu caráter virtuoso, e que justamente por ter ficado conhecida ela se torna nada mais que um “pedido simples”, mas que não por isso perde sua exigência colossal de performance), Perlman antes de tocar apenas o trecho inicial da peça se dá ao luxo em demonstrar a sua mais completa humanidade em dizer: “ah não, você não me pediu essa, eu tocava essa quando era jovem, vou tocar um trecho do início” e logo depois de tocar então encerra: “pronto, é o máximo que consigo tocar”. Essa entrevista me afirma aquela importância do cultivo de uma autoconfiança no lidar com a música, o delimitar a si próprio o “sabido bom” e então expressá-lo, ou seja, não reprimir essa vontade com vistas no almejar desenvolvê-la em direção a um desconhecido futuro onde a crença do “tudo sempre pode ser melhor” ao invés de beneficiar, leva àquela cegueira em nome de um grande ideal alhures sabe se lá onde esteja adormecido, como aquela princesa que aguarda o beijo do seu príncipe para então despertar do seu sono encantado... – isso pode até valer para a vida, mas para aprender música é catastrófico! Só traz o desnorteio e aquele inevitável desânimo em continuar. Quando vislumbramos um infinito de possibilidades podemos correr o sério risco de covardemente não sairmos do lugar. Aqui vale aquela frase de Nietzsche: “se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti”. Pois bem, na entrevista Perlman desmistifica até aquelas lendas a respeito de si sobre, por exemplo, ter solado um concerto somente com três cordas do violino porque uma tinha arrebentado... Ele mesmo fala que são mentiras criadas para inspirar. E isso tudo desilude o aprendizado da musica? Para mim é bem pelo contrário, justamente nos mostra que a música está muito mais acessível do que pensamos, ela está ali para que todos possam se achegar, ela é feita por seres humanos como nós e para nós objetivando nos gerar prazer, não lamentações. E até o gênio Itzhak Perlman como ser humano uma vez disse: “pronto, é o máximo que consigo tocar”.  

                                                                                    Philip G. Mayer

http://globotv.globo.com/rede-globo/programa-do-jo/v/itzhak-perlman-se-apresenta-na-abertura-do-programa-do-jo/2215483/

http://globotv.globo.com/rede-globo/programa-do-jo/v/itzhak-perlman-e-um-dos-maiores-virtuoses-do-violino/2215527/