sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O Filisteu Moderno

O substantivo adjectivado “filisteu” tem uma conotação pejorativa e está ligado ao utilitarismo da nova burguesia da “boa sociedade” do século XIX que via no objecto de arte, ou um artigo vendável e passível de lucro, transformando assim o objecto de arte num objecto de consumo, ou numa forma de se afirmar na sociedade através da exibição ostensiva de “cultura”. A imagem do filisteu era a do indivíduo que coleccionava obras de arte não pelo amor desinteressado à arte e à beleza, mas pela utilidade que essa colecção lhe traria, seja em dinheiro, seja em status social. O filisteu era um utilitarista.

Com a sociedade de massas, a “boa sociedade” desapareceu ― ou pelo menos não assume o protagonismo que tinha noutros tempos. Falamos hoje de “alta sociedade” ou de VIP’s, mas a “boa sociedade” tal qual existia no século XIX já não existe. A “cultura de massas” é um eufemismo, porque na realidade não existe; o mais que podem existir são “culturas de massas”, porque elas são tantas que se aproximam do número de culturas inerentes a todos os indivíduos per se.
O filisteu contemporâneo, salvo excepções, já não dedica o seu utilitarismo inato à arte porque esta já não lhe dá nem o estatuto social nem o retorno imediato de investimento do capital que deu noutros tempos. Em certa medida, o artista é hoje mais livre porque deixou de ser acossado pelos abutres do filistinismo dos fins do século XIX e princípio do século XX. A própria arte moderna do princípio do século XX nada mais foi que uma reacção dos artistas contra essa “boa sociedade” apinhada de filisteus.

O utilitarismo do filisteu contemporâneo ― o filisteu actual ― ignora a arte e o belo, e passou-se para a técnica. O filisteu actual (ou o filisteu em acto, o que actua) é o técnico por excelência. É o indivíduo que vê o mundo que o rodeia como uma mera engrenagem da qual pode, de algum modo, retirar vantagens sejam estas de estatuto social ou pecuniárias. O filisteu actual é a caricatura do alemão que não faz absolutamente nada sem um livro de instruções para cada circunstância; até o simples acto sexual é passível de um Kama Sutra ou de outro qualquer manual de operações.

O filisteu actual não faz análises de situação: segue fiel e caninamente as sínteses dos maiorais e dos líderes de opinião nas diversas áreas da técnica. Não lhe interessam as explicações, mas apenas as conclusões “pronto-a-vestir”. É o “homem sem qualidades” de Musil ― o homem que não acredita no carácter pessoal e humano como chave para o entendimento das coisas, mas antes na lógica impessoal dos sistemas e da técnica; o mundo, para ele, só é inteligível à luz da técnica. É nesta dependência da técnica que jaz o seu utilitarismo, porque o primado da técnica assume-se como capaz de fazer desaparecer a importância do carácter do homem nas relações humanas que assim passam a ser apenas um conjunto de meras transacções utilitárias.

Porém, o mais grave do filistinismo actual é que substituiu a política pela técnica; ou melhor, confunde as duas coisas. A política é vista como a aplicação da técnica aos assuntos humanos; a política passa a ser sujeita a meios e fins como um qualquer produto fabricado numa qualquer linha de montagem industrial. Como um qualquer produto acabado, a política é consumida e defecada no processo vital do filisteu actual. E não há nada — absolutamente nada! — nem nenhum argumento ou evidência que possa convencer o filisteu actual de que ele está certo ou errado em qualquer coisa, porque ele nunca tem a certeza ou a incerteza de nada ou mesmo a simples convicção da probabilidade de poder estar próximo da certeza ou da incerteza sobre alguma coisa: para o filisteu actual, a mera possibilidade de alguma coisa não existe sem a a lógica impessoal da técnica como sistema de garantia de validade do mundo ― é a técnica a única coisa que o mantém em um equilíbrio precário que lhe permite “levar a vidinha”.

                                                                Orlando Braga (filósofo português)

Orlando Braga 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Assim Falava Zaratustra: os aleijados às avessas

“Desde que vivo entre os homens, porém, o que menos me importa é ver que a este falta um olho, àquele um ouvido, a um terceiro a perna, ou outros que perderam a língua, o nariz ou a cabeça.

Vejo, e já vi coisas piores: e tão espantosas, que delas preferiria não falar, e outras não posso guardá-las em silêncio: vi homens que carecem de tudo, conquanto tenham qualquer coisa em excesso; homens que são unicamente um grande olho, ou uma grande boca, ou um grande ventre ou qualquer outra coisa grande. – A esses chamo eu aleijados às avessas. 

Quando, ao sair da minha solidão, atravessava pela primeira vez esta ponte, não acreditei nos meus olhos, olhei para todos os lados e acabei por dizer:

– Mas é uma orelha! Uma orelha do tamanho de um homem! – E ao olhar de mais perto, vi que por trás da orelha movia-se o que quer que fosse tão pequeno, mesquinho e débil que causava dó. E efetivamente: a monstruosa orelha estava pousada num tênue e curto caniço e esse caniço era um homem! – Com o auxilio de uma lente ainda se podia reconhecer um rostinho invejoso, e também uma alma vã que se agitava no remate do caniço. O povo, contudo, dizia-me que a orelha – grande era, não só um homem, mas um grande homem, um gênio. Eu, porém, nunca acreditei no que o povo diz quando fala de grandes homens, e persisti em acreditar que era um aleijado às avessas, com pouquíssimo de tudo e uma só coisa em demasia.”

Assim Falava Zaratustra

 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Assim Falava Zaratustra: acerca do último homem

V

Pronunciadas estas palavras, em silêncio, olhou outra vez o povo. “Ei-los aí, disse ao seu coração, ei-los que riem; não me compreendem; não sou a boca para tais ouvidos.

Será mister, em primeiro lugar, romper-lhes os tímpanos para que aprendam a ouvir com os olhos? Será preciso atroar os ares como os címbalos ou como os predicadores da Quaresma? Ou só acreditam eles nos tartamudos?

Há alguma coisa de que eles se orgulham. Como chamam, pois, a tal coisa de que estão orgulhosos? Chamam-na cultura, e é o que os distingue dos guardadores de cabras.

Não gostam de ser tratados com a palavra ‘desprezo’, por isso falar-lhes-ei ao seu orgulho.

Falar-lhes-ei do que há de desprezível: quero dizer do último homem

E Zaratustra falou assim ao povo:

“É tempo de que o homem visualize um objetivo para si.

É tempo de que o homem plante a semente de sua mais alta esperança.

Ainda é seu solo bastante rico. Mas um dia, pobre e avaro será ele, e, nele, já não poderá crescer nenhuma árvore elevada.

Ah! Aproxima-se o tempo, em que o homem não lançará mais a flecha de seu desejo acima dos homens, e em que as cordas de seu arco já não saberão mais vibrar.

Eu vos digo: é necessário ter um caos em si para poder dar à luz uma estrela bailarina. Eu vos digo: tendes ainda um caos dentro de vós”.

Ah! Aproxima-se o tempo em que o homem será incapaz de dar à luz uma estrela bailarina. O que vem é a época do homem mais desprezível entre todos, que nem poderá mais desprezar a si mesmo.

Vede! Eu vos mostro o último homem.

“Que é o amor? Que é o criar? Que é o aspirar? Que é a estrela?”

Assim perguntará o último homem, piscando os olhos.

A terra tornar-se-á insignificante, e, sobre ela, veremos saltitar o último homem que tudo amesquinhará. Sua espécie é indestrutível como a da pulga; o último homem é o que viverá por mais tempo.

- Descobrimos a felicidade – dizem os últimos homens, piscando os olhos.

Eles abandonarão as comarcas onde a vida for dura; porque terão necessidade do calor.

Amarão ainda o seu próximo, e se esfregarão uns aos outros; porque necessitarão de calor.

Adoecer, ter desconfiança, parecer-lhes-ão pecados; andarão com cautela.

Um pouco de veneno, uma ou outra vez; ele oferecerá sonhos agradáveis. E muitos venenos, afinal, para ter uma morte agradável.

Trabalhar-se-á ainda, por que o trabalho é uma distração. Mas procurar-se-á que a distração não fatigue.

Ninguém será rico nem pobre; são ambas coisas demasiado penosas. Quem quererá ainda governar? Quem quererá ainda obedecer? São ambas coisas demasiado penosas.

Nenhum pastor, e um só rebanho! Todos quererão o mesmo, todos serão iguais; e quem pensar diferentemente entrará voluntariamente num manicômio.

- Outrora todos eram loucos – dirão os malignos piscando os olhos.

Ser-se-á prudente, e saber-se-á tudo quanto já aconteceu: assim ter-se-á do que ridicularizar interminavelmente. Disputar-se-á ainda; mais rápidas serão as reconciliações, temerosas de alterar a digestão.

Ter-se-á seu prazerzinho do dia, e o seu prazerzinho da noite; mas se reverenciará a saúde.

- Descobrimos a felicidade – dirão os últimos homens, piscando os olhos.

Aqui acabou o primeiro discurso de Zaratustra – o qual também se chama o “prólogo” – porque neste momento foi interrompido pelos gritos e pela hilaridade da multidão.

- Dá-nos este último homem, Zaratustra – exclamavam – faz-nos semelhantes a esse último homem! E damos de presente para ti o Além-Homem.

E todo o povo exultava e estalava a língua. Zaratustra ficou triste e disse ao seu coração:

- Não me compreendem; não é a minha boca a boca de que necessitam esses ouvidos.

Vivi demasiadamente nas montanhas; escutei demasiadamente os arroios e as árvores, e agora lhes falo como se fala aos guardadores de cabras.

Plácida é a minha alma e luminosa como a montanha na manhã. Mas eles creem que sou frio, e me tomam por um sinistro farsante.

E, no entanto, eles me olham e riem; e, ainda, além de rir, odeiam-me e, enquanto riem, seguem odiando-me.

Há gelo em seus risos. 


   

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Prefácio de "Aurora" - para começar Nietzsche

Os dois textos abaixo são o início do prefácio de "Aurora", obra de F. Nietzsche, aliás, um livro que recomendo para quem quer começar uma viagem pela filosofia do gênio: 

AURORA
Prefácio:

I

Neste livro encontra-se agindo um ser “subterrâneo” que cava, perfura e corrói. Ver-se-á, desde que se tenha olhos para tal trabalho nas profundezas, como avança lentamente, com circunspecção e com uma suave inflexibilidade, sem que se perceba em demasia a angústia que acompanha a privação prolongada de ar e de luz; poder-se-ia até julgá-lo feliz por realizar esse trabalho obscuro. Não parece que alguma fé o guie, que alguma consolação o compense? Talvez queira ter para ele uma longa obscuridade, coisas que lhe sejam próprias, coisas incompreensíveis, secretas, enigmáticas, porque sabe o que terá em troca: sua manhã só para ele, sua redenção, sua aurora?... Certamente voltará: não lhe perguntem o que procura lá em baixo; ele mesmo o dirá, esse Trofônio, esse ser de aparência subterrânea, uma vez que de novo se tenha “tornado homem”. Costuma-se esquecer inteiramente o silêncio quando se esteve soterrado tanto tempo como ele, só tanto tempo como ele.

II

Com efeito, meus pacientes amigos, vou dizer-lhes o que procurei lá embaixo, vou dizer-lhes neste prefácio tardio, que poderia ter-se facilmente tornado um último adeus, uma oração fúnebre, pois voltei — e re-emergi. Não pensem que pretendo envolvê-los em semelhante empresa feliz ou mesmo somente em semelhante solidão! De fato, quem percorre tais caminhos não encontra ninguém: isso é peculiar aos “caminhos particulares”. Ninguém vem em seu auxílio; ele próprio deve livrar-se, completamente só, de todos os perigos, de todos os acasos, de todas as maldades, de todas as tempestades que sobrevêm. De fato, tem seu caminho que é próprio dele — e, em acréscimo, a amargura, por vezes o desdém, que lhe causam esse “próprio dele”; deve-se enumerar, entre esses elementos de amargura e de desprezo, a incapacidade, por exemplo, em que se encontram seus amigos de adivinhar onde ele está ou para onde vai, a ponto de perguntarem às vezes: “Como? Será que isso é avançar? Será que ainda tem — um caminho?” — Foi então que empreendi uma coisa que não podia ser para todos: desci para as profundezas; passei a perfurar o chão, comecei a examinar e a minar uma velha confiança sobre a qual, há alguns milhares de anos, nós, os filósofos, temos o costume de construir, como sobre o terreno mais firme — e reconstruir sempre, embora até hoje toda construção tenha ruído: comecei a minar nossa confiança na moral. Mas será que não me compreendem?

                        F. Nietzsche (Ruta, perto de Gênova, outono do ano de 1886) 




segunda-feira, 19 de agosto de 2013

"O Emprego"

Curta-metragem de animação
Vencedor de 102 prêmios internacionais.

Direção: Grasso 'Bou' Santiago
Ideia: Patricio Plaza
Animação: Santiago Grasso / Patricio Plaza
Produtor: Opusbou


domingo, 18 de agosto de 2013

Em algum rincão do universo...

"Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro, onde animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. – Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Houve eternidades em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta que conduzisse além da vida humana. Ao contrário, ele é humano, e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente, como se os gonzos do mundo girassem nele. Mas se pudéssemos entender-nos com a mosca, perceberíamos então que também ela boia no ar com esse pathos e sente em si o centro voante deste mundo. Não há nada tão desprezível e mesquinho na natureza que, com um pequeno sopro daquela força do conhecimento, não transbordasse logo um fardo; e como todo transportador de carga quer ter seu admirador, mesmo o mais orgulhoso dos homens, o filósofo, pensa ver por todos os lados os olhos do universo telescopicamente em mira sobre seu agir e pensar."
             
                    F. Nietzsche (Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral, 1873)
 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Os Próprios Criadores!

"Toda a beleza e sublimidade que emprestamos às coisas reais e imaginadas, quero exigir de volta como propriedade e produto do homem: como a sua mais bela apologia. O homem como poeta, como pensador, como Deus, como amor, como poder: oh, para além da sua régia generosidade, com a qual ele contemplou as coisas, a fim de empobrecer a si mesmo e se sentir miserável! Este foi até agora o seu maior altruísmo, que ele admirasse, adorasse e soubesse ocultar de si mesmo que era ele, precisamente, quem criava aquilo que, em seguida, punha-se a admirar." 
                                                                                               
                                                                F. Nietzsche (A Vontade de Poder)

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Amor à Vida...

Por que eu deveria crer em outro mundo onde há somente paz, sossego e alegria? Se nesse mundo já é possível isso, sendo ainda que tais valores "paz", "sossego", "alegria" não passam apenas de teses que só fazem sentido cada qual com suas antíteses? E ainda, desde quando precisaríamos formular tais teses e antíteses pra poder viver? A vida é tão indiferente, tão livre em relação a isso... Ela tem andado tanto em paralelo com essas ilusões do pensamento... Se queremos viver com algum bem estar, se há aí algum anseio por uma plenitude mais digna, muitas teses e antíteses terão de ser derrubadas primeiro...

                                                                                  Philip G. Mayer




domingo, 14 de julho de 2013

Amor Fati

“Eu ainda vivo, eu ainda penso: ainda tenho de viver, pois ainda tenho de pensar. Sum, ergo cogito: cogito, ergo sum [Eu sou, portanto penso: eu penso, portanto sou]. Hoje, cada um se permite expressar o seu mais caro desejo e pensamento: também eu, então, quero dizer o que desejo para mim mesmo e que pensamento, este ano, me veio primeiramente ao coração – que pensamento deverá ser para mim razão, garantia e doçura de toda a vida que me resta! Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: - assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas. Amor fati [amor ao destino]: seja este, doravante o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!"                                                    
                                                                
                                                                 F. Nietzsche (A Gaia Ciência - 1882)


terça-feira, 2 de julho de 2013

Cegueira Voluntária

"Se alguém esconde algo atrás de uma moita e depois a procura exatamente nesse lugar acabando por encontrá-la aí, não há nenhum motivo para a glorificação dessa procura e dessa descoberta. Mas é todavia isso o que ocorre com a procura e a descoberta da verdade no domínio que concerne à razão."

F. Nietzsche (Sobre a Verdade e a Mentira no Sentido Extramoral)

...


sexta-feira, 28 de junho de 2013

Algo está acontecendo por aí

"Ouve-se um urro vindo das ruas. Algo está acontecendo por aí e nada foi previsto nas análises dos especialistas. Algo está acontecendo por aí e não se enquadra no figurino das interpretações políticas acadêmicas. Algo está acontecendo por aí e tem a força de um tsunami, a violência, por vezes, do ressentimento, a alegria, quase sempre, das festas colossais e inesquecíveis, a criatividade dos momentos de ruptura e a persistência, quem sabe, fugaz, mas devastadora, de uma avalanche, de um tornado, de um terremoto, de uma lava subterrânea incontrolável e que encontrou o caminho da superfície, de uma tempestade de verão, uma verão fora de época, no outono, no inverno, que supera os seus limites, inventa novas realidades, semeia poesia, utopia e acende esperanças.

Algo está acontecendo por aí e tem a marca das redes, essas cadeias sociais que até há pouco nem existiam, a marca da democracia direta, aquém e além dos partidos, aquém e além dos poderes constituídos, aquém e além das sombras silenciosas, um rugido,  um rastilho de vozes, um clamor, uma indignação contra o velho, contra o falso novo e contra os oportunistas que tentam infiltrar o velho no novo. Algo está acontecendo por aí e se volta contra a sociedade “midíocre”, conservadora, reacionária, moralista e amiga do poder econômico que funciona como sistema de hierarquia social. Algo está acontecendo por aí e pode ser visto, talvez, como mais um sinal da “passagem ao hiperespetacular”, um grito contra a espetacularização da política por meio de uma aceleração, um basta à greve das metamorfoses ancorado no retorno das massas ao palco da vida, as ruas.

Algo está acontecendo por aí e não se trata, como desejam alguns, de uma nostalgia da ditadura, nem de uma confissão de amor ao egoísmo e ao horror econômico do neoliberalismo caduco, tampouco de uma adesão tardia ao “melhor dos mundos” marxista, muito menos de um repúdio aos avanços sociais duramente conquistados pelo Brasil. Algo está acontecendo por aí e não se trata de um diagnóstico de que estamos em nosso pior momento, mas, possivelmente, de que mesmo no melhor temos tanto do pior, esse pior historicamente reproduzido, que chegou a hora de tomar as rédeas e exigir o grande salto sobre o abismo das desigualdades, da hipocrisia, dos conchavos, dos formalismos jurídicos aplicados quando convenientes e da politicagem fétida em nome da governabilidade. 

Sim, algo está acontecendo por aqui e estamos no olho do furacão, fazendo história, reinventando o cotidiano, passando o país a limpo, colorindo a política, derrubando clichês, mitos e preconceitos, exigindo um novo jeito de ser, uma postura inédita, um comprometimento nunca antes visto entre nós. Algo está acontecendo por aqui e tem a fúria dos nossos indignados, o hálito dos nossos inconformados, a garra dos nossos jovens inquietos, a “ingenuidade”, que permite o impossível, dos que ainda não se habituaram a calar por excesso de sensatez e de razoabilidade. Algo está acontecendo por aí e, maravilhosamente, esse aí agora é aqui. Algo está acontecendo entre nós a ponto de colocar de joelhos o sistema com seu cortejo de aproveitadores.

Algo está acontecendo por aí e disso nunca esqueceremos."

                                                                     Juremir Machado da Silva (jornalista)
                                                                      Jornal Correio do Povo - 27/06/2013 



É caro Juremir... como eu já disse outra vez por aqui, talvez o Brasil esteja se tornando mais grego, retomando a velha Grécia, aquela glória nunca mais vista.



terça-feira, 25 de junho de 2013

O ser humano odeia a corrpupção

Logo abaixo segue um texto do filósofo gaúcho João Batista Mezzomo sobre as manifestações. O filósofo é autor do livro "Quem Tem Ouvidos" publicado pela editora Besourobox, excelente livro que recomendo muito! A clareza das palavras no qual o autor coloca sobre algo tão complexo é justamente o caminho que anseio cruzar cada vez mais em meu blog. Ótima leitura a todos. 


O ser humano odeia a corrupção

"As recentes manifestações que ocorrem não somente no Brasil, mas em todo o mundo, têm em comum o fato de os manifestantes mesmo não saberem dizer exatamente o que querem. Eles querem mudar o mundo, mas que mundo querem e exatamente como alcançá-lo ainda não. Esse fato não é novo, assim como nenhum fato pode ser novo nos dias de hoje. Como já está escrito no Antigo Testamento, "não existe nada de novo sob o sol". Então, essa "rebeldia sem causa" já foi vivida muitas vezes, e uma que vivemos recentemente foi a da chamada contracultura dos anos 60 de século passado, quando jovens deixaram crescer barbas e cabelos e saíram às ruas pregando paz e amor, e um mundo liberto das convenções sociais que nos oprimem. Eles mudaram o mundo? É claro que mudaram, pois hoje nos vestimos e vivemos como nos dá na telha. Mas no início não sabiam exatamente o que queriam, pois o caminho se faz ao caminhar. No entanto, algo do que está por trás da insatisfação de hoje podemos vislumbrar pelas palavras e frases, e um pouco de reflexão mais profunda. As pessoas querem o fim da corrupção. As pessoas odeiam a corrupção. Mas será que se acabarmos com a corrupção atingiremos o que desejamos, e seremos enfim felizes? Não existe nada de novo sob o sol, e o ser humano sempre odiou a corrupção. Eu diria mesmo que a corrupção é o único inimigo que se interpõe no caminho da felicidade plena. E é tão difícil vencê-lo plenamente que a cultura pôs em nossos olhos uma venda, uma espécie de proteção, de tal modo que não conseguimos ver plenamente o que é isso que odiamos, a corrupção, até o dia que pudermos enfrentá-la, e vencê-la. Mas se a cultura pôs em nossos olhos uma venda, antigamente já soubemos o que é nosso inimigo, a corrupção. E esse sentido perdido, pela divisão do mundo em bem e mal, certos e errados - em suma, pela transformação do mundo em "partes", donde a palavra "partidos" – pode ser percebido como um vislumbre quando olhamos para o sentido antigo da palavra corrupção. "A natureza se corrompe" diz esse sentido antigo. E nós odiamos isso. E continuaremos a odiar, e sair para as ruas, e jogar pedras nos vidros, e destruir coisas, até que nossa venda caia, e reconheçamos enfim o destino último do ser humano, o motivo maior de nossa existência: vencer a corrupção. Mas para isso teremos de sair de uma visão de "partidos"

                                                                               João Batista Mezzomo




quarta-feira, 19 de junho de 2013

Sobre as Manifestações do Brasil

Justamente o que eu acho maravilhoso nas manifestações em todo o Brasil: elas não sabem o que querem, mas sabem muito bem o que NÃO querem! E só nisso acredito que nós brasileiros sejamos os pioneiros nesse tipo de reivindicação em todo o mundo: uma manifestação que deixa em aberto a construção de uma nova humanidade que nunca vimos antes, ou talvez da retomada de uma humanidade que perdemos já há muito tempo, nisso nenhuma revolução europeia foi capaz de tamanho esclarecimento! Sabemos agora que o “querer” é sempre mesquinho e parcial, sabemos que os resultados devem vir justamente pelo desenrolar da própria circunstância como for concluída, bem ou mal para muitos, para poucos, para todos o que vier terá sido sabidamente o necessário e natural, sabemos que isso é que nos soa mais saudável, que qualquer tentativa de uma ideia preconcebida já não nos basta, ela sempre vai segregar, queremos mais, queremos tanto mais que não sabemos mais o que queremos, isso é que é maravilhoso: o simples direito de se manifestar pelo que nos faz mal! Isso soa barbarismo? Soa animal? Não, soa humano, demasiado humano como animais no que nunca deixamos de ser! E que bom que nunca deixamos de ser! Talvez o Brasil esteja se tornando mais grego! Aqueles gregos gloriosos - (nisso os filósofos talvez me entendam melhor). Por isso que não tenho nenhuma opinião sobre se uma multidão deve sair quebrando tudo ou não, a multidão é animal, ela é muito humana para deixar sua necessidade mais biológica de lado em prol de comportar-se feito um infeliz imbecilmente bem adestrado que espera boa vontade de quem já está há muito tempo bem acomodado, confortável e protegido por uma máquina de guerra e que sabe que pode permanecer completamente indiferente às demandas do povo – o que vem acontecendo já em tempos! Ora, não é com a tolerância e passividade típica de nós brasileiros que permanecemos até hoje insatisfeitos com a falta de atitude de nossos governantes? Pergunte aos franceses como que eles acabaram com a verdadeira frescura em que já se mostrava uma monarquia em 1789. Nos tempos de insatisfação e crise, o “comportar-se” é que justamente soa o mais desumano, não é quando nos comportamos bem que um surdo não nota nada à sua volta? Mas também poderia perguntar: não é com o bom comportamento que as coisas mudam?... Tanto faz! Se tanto faz, quem tem moral pra mudar a cabeça de alguém que está enfurecido (e com muita razão) para já não sair quebrando tudo? Deixe-o, que o destino o carregue, é a sua maneira de reagir, e que leia-se bem: às alturas que andamos hoje, essa já é a ÚLTIMA, desesperada maneira de reagir de um povo que já está desesperado! A bizarrice que existe hoje em dia é ser insatisfeito e bem comportado: esse é o mínimo necessário pra quem quer se manter no poder, é o mínimo necessário pra manter a própria ordem engessada e corrupta que ninguém atura mais, é a maior desumanidade que cada um pode fazer consigo. É muito fácil, e repito, é realmente muito fácil permanecer na velha e mofada postura que diz: “ah mas essas manifestações estão fazendo baderna, eu sou contra, quero ver se você sendo atingido por bombas da polícia não vai sair de fininho assustado” - ACORDA!!! Mais do que nunca talvez o sacrifício esteja agora sendo necessário!  Em um momento de profunda insatisfação, justamente permanecermos bem comportados é que mantém o confortável livre arbítrio de quem deveria mudar alguma coisa por nós, e que se não acabar mudando, restará somente a NÓS mudarmos, nem que o tempo se estreite em nos indicar talvez as vias dolorosas!!! Não, isso não é algum tipo de apelo premeditado à violência, mas apenas o alerta de que provavelmente estejamos nos aproximando de um limiar onde não nos haverá mais escolhas... Aos que acreditam em Deus, que ele então nos rume para o melhor... E aos que não acreditam, que o melhor então nos surja, insondável como o resultado espontâneo de uma multidão desesperada, de uma multidão que já não sabe mais nem o que quer! Não é mais razão, é natureza!

Nos encontramos às portas da velha Grécia! O perigo já é insuportável, mas o prazer é igualmente enorme! Avante amigos!! Porque falar em “camarada”, também já nos é repugnante!

                                                                             Philip G. Mayer

                                                                                   
“Tudo é precioso para aquele que foi, por muito tempo, privado de tudo!” - F. Nietzsche

 

domingo, 16 de junho de 2013

Má digestão...


Sentar-se à mesa para comer um alimento mal preparado, que deveria ter cozido mais tempo ao fogo, que deveria ser empurrado para longe a fim de se preservar a própria saúde, ou então mandado de volta para a panela para somente mais tarde apresentar-se melhor a quem deverá digeri-lo... Mas não! Justamente comê-lo! Crendo com isso que tornará o estômago mais forte para receber futuros alimentos estragados, e ter prazer nessa crença! Ora, e não é assim que lidamos com tudo que nos faz sofrer? Não digerimos os sofrimentos, esses alimentos que repugnam ao estômago, sempre em prol de um tanto a mais de força ao invés de repudiá-los ou lhes apontar a panela que deverão voltar? Não estaria justamente nessas duas últimas atitudes a verdadeira força? O respeito à nossa sensibilidade íntima que dita as regras do que nos convêm e não convêm é uma força muito mais poderosa, ou melhor, o escudo muito mais resistente contra a ameaça se comparado a um método de sacrifício que aposta para, se ganhar, tornar-se depois mais forte frente a novas ameaças. Mas e se a aposta perde? Bom, as consequências podem ir de uma leve dor de cabeça até a morte... Porém se a aposta ganha, realmente então adquirimos uma nova técnica. E nos alegramos com isso ao mesmo tempo em que obtemos coragem para seguir em frente, pois se é possível tirar o proveito do sofrimento para tornar-se mais virtuoso na técnica, isso quer dizer que descobriu-se um mundo novo e riquíssimo para ser explorado, mas somente por via do sacrifício, o motivador desse conhecer técnico. Aliás, devemos justamente a essa forma do conhecer todo o entusiasmo e curiosidade científica aflorada no homem, assim como talvez tudo o que hoje costumamos chamar de “desenvolvimento” ou “progresso da civilização”: o aprimoramento na calamidade, o benefício tirado do sofrimento, a ambição pelo sacrifício com vistas a receber a recompensa prometida. Mas se a escolha é pela aposta, então se pode intuir que antes dessa escolha há um temor por ver-se exposto a perigos sempre constantes e insondáveis, e se há esse temor, é porque não se aceitou a natureza como ela é, pois o que é a natureza se não um meio que traz sempre constantes perigos insondáveis? E quem é o culpado, a natureza que é imprevisível ou nós que perdemos a capacidade de nos defendermos? Se perdemos a defesa, nada mal que tenhamos desejado a adaptação, e hoje mais do que nunca glorificamos toda a capacidade de adaptação do homem frente à natureza, isso é o que nos separou definitivamente de todos os outros animais, aliás, nos separou da própria natureza em si: no mundo, o animal se defende, o homem se adapta. Mas será que já não é a hora (mais do que nunca que essa hora envia seus sinais) de começarmos a desconfiar dessa própria capacidade de adaptação? Não deveríamos nos perguntar se tal capacidade no fundo não é uma degeneração, sendo essa consequente da falta do autodomínio, autoconsideração e autorrespeito? Se a ciência como conhecemos tem medo que o homem um dia chegue à extinção, então ela tem medo de um evento inevitável: a prova disso é que os próprios meios de que ela se utiliza para evitar a extinção humana evidentemente no mínimo aceleraram essa própria extinção... 

Lancemos agora o olhar para longe, para muito longe, que esse olhar alcance o tempo mais remoto que ainda está por vir... Olhemos para os confins do futuro e de toda a ambição humana: - E então, o que se vê lá? Aonde chegamos, por fim, com toda a adaptação?... Pois eu não vejo nada se não... morte... Vejo uma carcaça estirada ao relento, morta e cheia de moscas... - Mas e do que ela morreu? - ...pois morreu de si mesma, do próprio cansaço! Definhou no seu temor e ambição em se adaptar! Ela já não vivia mais, tornou-se uma eterna observadora amedrontada da vida, o gênio cientista nunca satisfeito. Não por prazer! Ah meu caro, nisso não nos enganemos: mas por impotência e necessidade! Ou nunca te pareceu que a incapacidade de prezar-se, no qual o impotente com a vingança contida termina por tornar-se desconfiado ao extremo, e justamente por isso mesmo o melhor dissecador, o mais prodigioso homem de ciência, o técnico por excelência? Para esses homens do conhecimento, a técnica é necessária para se defenderem, já que por eles mesmos se tornaram incapazes. Essas naturezas não conseguem mais ver beleza nenhuma nem em si, ...nem em nada, ...aliás, a própria beleza os repugna... Não notastes como por mais que se entusiasmem, em última instância guardam uma terna melancolia sobre tudo?... Buscar verdades por trás do véu da espontaneidade, isso é o seu grande prazer, e nisso acreditam que é em si a própria vida: um sacrifício a mais sempre na incessante busca da “verdade mais profunda”... A sua alegria está nesse conceito, e não no seu sentimento... Eles inverteram tudo: o sentimento julgam superficial, e o conceito julgam profundo, quando justamente do visceral sentimento nasce um estreitado e questionável conceito, e não o contrário! Inverteram tudo e ainda junto estreitaram tudo! O que dizem ser erro é a própria beleza, quando a meticulosidade, justamente essa é a mutação bizarra, talvez um erro da natureza! Que a natureza não se deixe dominar pelo homem, mas que antes ela trate de aniquilar ao próprio homem que lhe quer dominar! Ele, que é apenas parte dela, mas que se julga tão aparte dela...


Vocês, grandes cientistas da vida, ressentidos, melancólicos, inventores de técnicas para comer de tudo! Eu sei que vocês sentem compaixão por aqueles que ainda têm de comer alimentos estragados sem a técnica, mas eu também sei que vocês nutrem secretamente um ódio mortal por aqueles que não comem tais alimentos, mas os empurram de uma vez para longe! Sei que cheios de asco aguardam pelo menor tropeço desses felizes que sabem selecionar o bom alimento para si, e só aí que então movidos pela inveja vocês aproveitam para se vingar! Essa é a miséria de vocês, a única felicidade que lhes resta e que aguardam ansiosamente por uma primeira brecha de oportunidade! Graças a vocês que hoje o mundo anda tão louco, tão anojado de si mesmo, sem nenhuma beleza, tão tenso e cheio de precauções desnecessárias! Vocês pisoteiam qualquer canteiro de flores com um prazer asqueroso, típico de alguém que precisa ser logo internado porque não aguenta mais nem a si próprio! Pergunto, por que não se dão logo um fim a si mesmos? Afinal não é isso que querem em última instância? Ah... Esqueci que pra isso são covardes... Eu sei, querem que alguém dê um fim a vocês, para ao menos não desaparecerem da terra sem terem sido notados, sem terem deixado a marca análoga: algum envergonhado por aqui... Crápulas! 

                                                                                  Philip G. Mayer


“Comer o pão que o diabo amassou”: nada mal para tornar-se o próprio diabo...