sexta-feira, 28 de junho de 2013

Algo está acontecendo por aí

"Ouve-se um urro vindo das ruas. Algo está acontecendo por aí e nada foi previsto nas análises dos especialistas. Algo está acontecendo por aí e não se enquadra no figurino das interpretações políticas acadêmicas. Algo está acontecendo por aí e tem a força de um tsunami, a violência, por vezes, do ressentimento, a alegria, quase sempre, das festas colossais e inesquecíveis, a criatividade dos momentos de ruptura e a persistência, quem sabe, fugaz, mas devastadora, de uma avalanche, de um tornado, de um terremoto, de uma lava subterrânea incontrolável e que encontrou o caminho da superfície, de uma tempestade de verão, uma verão fora de época, no outono, no inverno, que supera os seus limites, inventa novas realidades, semeia poesia, utopia e acende esperanças.

Algo está acontecendo por aí e tem a marca das redes, essas cadeias sociais que até há pouco nem existiam, a marca da democracia direta, aquém e além dos partidos, aquém e além dos poderes constituídos, aquém e além das sombras silenciosas, um rugido,  um rastilho de vozes, um clamor, uma indignação contra o velho, contra o falso novo e contra os oportunistas que tentam infiltrar o velho no novo. Algo está acontecendo por aí e se volta contra a sociedade “midíocre”, conservadora, reacionária, moralista e amiga do poder econômico que funciona como sistema de hierarquia social. Algo está acontecendo por aí e pode ser visto, talvez, como mais um sinal da “passagem ao hiperespetacular”, um grito contra a espetacularização da política por meio de uma aceleração, um basta à greve das metamorfoses ancorado no retorno das massas ao palco da vida, as ruas.

Algo está acontecendo por aí e não se trata, como desejam alguns, de uma nostalgia da ditadura, nem de uma confissão de amor ao egoísmo e ao horror econômico do neoliberalismo caduco, tampouco de uma adesão tardia ao “melhor dos mundos” marxista, muito menos de um repúdio aos avanços sociais duramente conquistados pelo Brasil. Algo está acontecendo por aí e não se trata de um diagnóstico de que estamos em nosso pior momento, mas, possivelmente, de que mesmo no melhor temos tanto do pior, esse pior historicamente reproduzido, que chegou a hora de tomar as rédeas e exigir o grande salto sobre o abismo das desigualdades, da hipocrisia, dos conchavos, dos formalismos jurídicos aplicados quando convenientes e da politicagem fétida em nome da governabilidade. 

Sim, algo está acontecendo por aqui e estamos no olho do furacão, fazendo história, reinventando o cotidiano, passando o país a limpo, colorindo a política, derrubando clichês, mitos e preconceitos, exigindo um novo jeito de ser, uma postura inédita, um comprometimento nunca antes visto entre nós. Algo está acontecendo por aqui e tem a fúria dos nossos indignados, o hálito dos nossos inconformados, a garra dos nossos jovens inquietos, a “ingenuidade”, que permite o impossível, dos que ainda não se habituaram a calar por excesso de sensatez e de razoabilidade. Algo está acontecendo por aí e, maravilhosamente, esse aí agora é aqui. Algo está acontecendo entre nós a ponto de colocar de joelhos o sistema com seu cortejo de aproveitadores.

Algo está acontecendo por aí e disso nunca esqueceremos."

                                                                     Juremir Machado da Silva (jornalista)
                                                                      Jornal Correio do Povo - 27/06/2013 



É caro Juremir... como eu já disse outra vez por aqui, talvez o Brasil esteja se tornando mais grego, retomando a velha Grécia, aquela glória nunca mais vista.



terça-feira, 25 de junho de 2013

O ser humano odeia a corrpupção

Logo abaixo segue um texto do filósofo gaúcho João Batista Mezzomo sobre as manifestações. O filósofo é autor do livro "Quem Tem Ouvidos" publicado pela editora Besourobox, excelente livro que recomendo muito! A clareza das palavras no qual o autor coloca sobre algo tão complexo é justamente o caminho que anseio cruzar cada vez mais em meu blog. Ótima leitura a todos. 


O ser humano odeia a corrupção

"As recentes manifestações que ocorrem não somente no Brasil, mas em todo o mundo, têm em comum o fato de os manifestantes mesmo não saberem dizer exatamente o que querem. Eles querem mudar o mundo, mas que mundo querem e exatamente como alcançá-lo ainda não. Esse fato não é novo, assim como nenhum fato pode ser novo nos dias de hoje. Como já está escrito no Antigo Testamento, "não existe nada de novo sob o sol". Então, essa "rebeldia sem causa" já foi vivida muitas vezes, e uma que vivemos recentemente foi a da chamada contracultura dos anos 60 de século passado, quando jovens deixaram crescer barbas e cabelos e saíram às ruas pregando paz e amor, e um mundo liberto das convenções sociais que nos oprimem. Eles mudaram o mundo? É claro que mudaram, pois hoje nos vestimos e vivemos como nos dá na telha. Mas no início não sabiam exatamente o que queriam, pois o caminho se faz ao caminhar. No entanto, algo do que está por trás da insatisfação de hoje podemos vislumbrar pelas palavras e frases, e um pouco de reflexão mais profunda. As pessoas querem o fim da corrupção. As pessoas odeiam a corrupção. Mas será que se acabarmos com a corrupção atingiremos o que desejamos, e seremos enfim felizes? Não existe nada de novo sob o sol, e o ser humano sempre odiou a corrupção. Eu diria mesmo que a corrupção é o único inimigo que se interpõe no caminho da felicidade plena. E é tão difícil vencê-lo plenamente que a cultura pôs em nossos olhos uma venda, uma espécie de proteção, de tal modo que não conseguimos ver plenamente o que é isso que odiamos, a corrupção, até o dia que pudermos enfrentá-la, e vencê-la. Mas se a cultura pôs em nossos olhos uma venda, antigamente já soubemos o que é nosso inimigo, a corrupção. E esse sentido perdido, pela divisão do mundo em bem e mal, certos e errados - em suma, pela transformação do mundo em "partes", donde a palavra "partidos" – pode ser percebido como um vislumbre quando olhamos para o sentido antigo da palavra corrupção. "A natureza se corrompe" diz esse sentido antigo. E nós odiamos isso. E continuaremos a odiar, e sair para as ruas, e jogar pedras nos vidros, e destruir coisas, até que nossa venda caia, e reconheçamos enfim o destino último do ser humano, o motivo maior de nossa existência: vencer a corrupção. Mas para isso teremos de sair de uma visão de "partidos"

                                                                               João Batista Mezzomo




quarta-feira, 19 de junho de 2013

Sobre as Manifestações do Brasil

Justamente o que eu acho maravilhoso nas manifestações em todo o Brasil: elas não sabem o que querem, mas sabem muito bem o que NÃO querem! E só nisso acredito que nós brasileiros sejamos os pioneiros nesse tipo de reivindicação em todo o mundo: uma manifestação que deixa em aberto a construção de uma nova humanidade que nunca vimos antes, ou talvez da retomada de uma humanidade que perdemos já há muito tempo, nisso nenhuma revolução europeia foi capaz de tamanho esclarecimento! Sabemos agora que o “querer” é sempre mesquinho e parcial, sabemos que os resultados devem vir justamente pelo desenrolar da própria circunstância como for concluída, bem ou mal para muitos, para poucos, para todos o que vier terá sido sabidamente o necessário e natural, sabemos que isso é que nos soa mais saudável, que qualquer tentativa de uma ideia preconcebida já não nos basta, ela sempre vai segregar, queremos mais, queremos tanto mais que não sabemos mais o que queremos, isso é que é maravilhoso: o simples direito de se manifestar pelo que nos faz mal! Isso soa barbarismo? Soa animal? Não, soa humano, demasiado humano como animais no que nunca deixamos de ser! E que bom que nunca deixamos de ser! Talvez o Brasil esteja se tornando mais grego! Aqueles gregos gloriosos - (nisso os filósofos talvez me entendam melhor). Por isso que não tenho nenhuma opinião sobre se uma multidão deve sair quebrando tudo ou não, a multidão é animal, ela é muito humana para deixar sua necessidade mais biológica de lado em prol de comportar-se feito um infeliz imbecilmente bem adestrado que espera boa vontade de quem já está há muito tempo bem acomodado, confortável e protegido por uma máquina de guerra e que sabe que pode permanecer completamente indiferente às demandas do povo – o que vem acontecendo já em tempos! Ora, não é com a tolerância e passividade típica de nós brasileiros que permanecemos até hoje insatisfeitos com a falta de atitude de nossos governantes? Pergunte aos franceses como que eles acabaram com a verdadeira frescura em que já se mostrava uma monarquia em 1789. Nos tempos de insatisfação e crise, o “comportar-se” é que justamente soa o mais desumano, não é quando nos comportamos bem que um surdo não nota nada à sua volta? Mas também poderia perguntar: não é com o bom comportamento que as coisas mudam?... Tanto faz! Se tanto faz, quem tem moral pra mudar a cabeça de alguém que está enfurecido (e com muita razão) para já não sair quebrando tudo? Deixe-o, que o destino o carregue, é a sua maneira de reagir, e que leia-se bem: às alturas que andamos hoje, essa já é a ÚLTIMA, desesperada maneira de reagir de um povo que já está desesperado! A bizarrice que existe hoje em dia é ser insatisfeito e bem comportado: esse é o mínimo necessário pra quem quer se manter no poder, é o mínimo necessário pra manter a própria ordem engessada e corrupta que ninguém atura mais, é a maior desumanidade que cada um pode fazer consigo. É muito fácil, e repito, é realmente muito fácil permanecer na velha e mofada postura que diz: “ah mas essas manifestações estão fazendo baderna, eu sou contra, quero ver se você sendo atingido por bombas da polícia não vai sair de fininho assustado” - ACORDA!!! Mais do que nunca talvez o sacrifício esteja agora sendo necessário!  Em um momento de profunda insatisfação, justamente permanecermos bem comportados é que mantém o confortável livre arbítrio de quem deveria mudar alguma coisa por nós, e que se não acabar mudando, restará somente a NÓS mudarmos, nem que o tempo se estreite em nos indicar talvez as vias dolorosas!!! Não, isso não é algum tipo de apelo premeditado à violência, mas apenas o alerta de que provavelmente estejamos nos aproximando de um limiar onde não nos haverá mais escolhas... Aos que acreditam em Deus, que ele então nos rume para o melhor... E aos que não acreditam, que o melhor então nos surja, insondável como o resultado espontâneo de uma multidão desesperada, de uma multidão que já não sabe mais nem o que quer! Não é mais razão, é natureza!

Nos encontramos às portas da velha Grécia! O perigo já é insuportável, mas o prazer é igualmente enorme! Avante amigos!! Porque falar em “camarada”, também já nos é repugnante!

                                                                             Philip G. Mayer

                                                                                   
“Tudo é precioso para aquele que foi, por muito tempo, privado de tudo!” - F. Nietzsche

 

domingo, 16 de junho de 2013

Má digestão...


Sentar-se à mesa para comer um alimento mal preparado, que deveria ter cozido mais tempo ao fogo, que deveria ser empurrado para longe a fim de se preservar a própria saúde, ou então mandado de volta para a panela para somente mais tarde apresentar-se melhor a quem deverá digeri-lo... Mas não! Justamente comê-lo! Crendo com isso que tornará o estômago mais forte para receber futuros alimentos estragados, e ter prazer nessa crença! Ora, e não é assim que lidamos com tudo que nos faz sofrer? Não digerimos os sofrimentos, esses alimentos que repugnam ao estômago, sempre em prol de um tanto a mais de força ao invés de repudiá-los ou lhes apontar a panela que deverão voltar? Não estaria justamente nessas duas últimas atitudes a verdadeira força? O respeito à nossa sensibilidade íntima que dita as regras do que nos convêm e não convêm é uma força muito mais poderosa, ou melhor, o escudo muito mais resistente contra a ameaça se comparado a um método de sacrifício que aposta para, se ganhar, tornar-se depois mais forte frente a novas ameaças. Mas e se a aposta perde? Bom, as consequências podem ir de uma leve dor de cabeça até a morte... Porém se a aposta ganha, realmente então adquirimos uma nova técnica. E nos alegramos com isso ao mesmo tempo em que obtemos coragem para seguir em frente, pois se é possível tirar o proveito do sofrimento para tornar-se mais virtuoso na técnica, isso quer dizer que descobriu-se um mundo novo e riquíssimo para ser explorado, mas somente por via do sacrifício, o motivador desse conhecer técnico. Aliás, devemos justamente a essa forma do conhecer todo o entusiasmo e curiosidade científica aflorada no homem, assim como talvez tudo o que hoje costumamos chamar de “desenvolvimento” ou “progresso da civilização”: o aprimoramento na calamidade, o benefício tirado do sofrimento, a ambição pelo sacrifício com vistas a receber a recompensa prometida. Mas se a escolha é pela aposta, então se pode intuir que antes dessa escolha há um temor por ver-se exposto a perigos sempre constantes e insondáveis, e se há esse temor, é porque não se aceitou a natureza como ela é, pois o que é a natureza se não um meio que traz sempre constantes perigos insondáveis? E quem é o culpado, a natureza que é imprevisível ou nós que perdemos a capacidade de nos defendermos? Se perdemos a defesa, nada mal que tenhamos desejado a adaptação, e hoje mais do que nunca glorificamos toda a capacidade de adaptação do homem frente à natureza, isso é o que nos separou definitivamente de todos os outros animais, aliás, nos separou da própria natureza em si: no mundo, o animal se defende, o homem se adapta. Mas será que já não é a hora (mais do que nunca que essa hora envia seus sinais) de começarmos a desconfiar dessa própria capacidade de adaptação? Não deveríamos nos perguntar se tal capacidade no fundo não é uma degeneração, sendo essa consequente da falta do autodomínio, autoconsideração e autorrespeito? Se a ciência como conhecemos tem medo que o homem um dia chegue à extinção, então ela tem medo de um evento inevitável: a prova disso é que os próprios meios de que ela se utiliza para evitar a extinção humana evidentemente no mínimo aceleraram essa própria extinção... 

Lancemos agora o olhar para longe, para muito longe, que esse olhar alcance o tempo mais remoto que ainda está por vir... Olhemos para os confins do futuro e de toda a ambição humana: - E então, o que se vê lá? Aonde chegamos, por fim, com toda a adaptação?... Pois eu não vejo nada se não... morte... Vejo uma carcaça estirada ao relento, morta e cheia de moscas... - Mas e do que ela morreu? - ...pois morreu de si mesma, do próprio cansaço! Definhou no seu temor e ambição em se adaptar! Ela já não vivia mais, tornou-se uma eterna observadora amedrontada da vida, o gênio cientista nunca satisfeito. Não por prazer! Ah meu caro, nisso não nos enganemos: mas por impotência e necessidade! Ou nunca te pareceu que a incapacidade de prezar-se, no qual o impotente com a vingança contida termina por tornar-se desconfiado ao extremo, e justamente por isso mesmo o melhor dissecador, o mais prodigioso homem de ciência, o técnico por excelência? Para esses homens do conhecimento, a técnica é necessária para se defenderem, já que por eles mesmos se tornaram incapazes. Essas naturezas não conseguem mais ver beleza nenhuma nem em si, ...nem em nada, ...aliás, a própria beleza os repugna... Não notastes como por mais que se entusiasmem, em última instância guardam uma terna melancolia sobre tudo?... Buscar verdades por trás do véu da espontaneidade, isso é o seu grande prazer, e nisso acreditam que é em si a própria vida: um sacrifício a mais sempre na incessante busca da “verdade mais profunda”... A sua alegria está nesse conceito, e não no seu sentimento... Eles inverteram tudo: o sentimento julgam superficial, e o conceito julgam profundo, quando justamente do visceral sentimento nasce um estreitado e questionável conceito, e não o contrário! Inverteram tudo e ainda junto estreitaram tudo! O que dizem ser erro é a própria beleza, quando a meticulosidade, justamente essa é a mutação bizarra, talvez um erro da natureza! Que a natureza não se deixe dominar pelo homem, mas que antes ela trate de aniquilar ao próprio homem que lhe quer dominar! Ele, que é apenas parte dela, mas que se julga tão aparte dela...


Vocês, grandes cientistas da vida, ressentidos, melancólicos, inventores de técnicas para comer de tudo! Eu sei que vocês sentem compaixão por aqueles que ainda têm de comer alimentos estragados sem a técnica, mas eu também sei que vocês nutrem secretamente um ódio mortal por aqueles que não comem tais alimentos, mas os empurram de uma vez para longe! Sei que cheios de asco aguardam pelo menor tropeço desses felizes que sabem selecionar o bom alimento para si, e só aí que então movidos pela inveja vocês aproveitam para se vingar! Essa é a miséria de vocês, a única felicidade que lhes resta e que aguardam ansiosamente por uma primeira brecha de oportunidade! Graças a vocês que hoje o mundo anda tão louco, tão anojado de si mesmo, sem nenhuma beleza, tão tenso e cheio de precauções desnecessárias! Vocês pisoteiam qualquer canteiro de flores com um prazer asqueroso, típico de alguém que precisa ser logo internado porque não aguenta mais nem a si próprio! Pergunto, por que não se dão logo um fim a si mesmos? Afinal não é isso que querem em última instância? Ah... Esqueci que pra isso são covardes... Eu sei, querem que alguém dê um fim a vocês, para ao menos não desaparecerem da terra sem terem sido notados, sem terem deixado a marca análoga: algum envergonhado por aqui... Crápulas! 

                                                                                  Philip G. Mayer


“Comer o pão que o diabo amassou”: nada mal para tornar-se o próprio diabo...

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Destino da Moral

"Moral do indivíduo maduro. - Até agora a impessoalidade foi vista como a verdadeira característica da ação moral; e demonstrou-se que no início foi a consideração pela utilidade geral que fez todas as ações impessoais serem louvadas e distinguidas. Mas não estaria iminente uma significativa transformação dessa maneira de ver, agora que cada vez mais se percebe que justamente na consideração mais pessoal possível se acha também a maior utilidade para o conjunto; de modo que precisamente o agir estritamente pessoal corresponde ao conceito atual de moralidade (entendida como utilidade geral)? Fazer de si uma pessoa integra, e em tudo quanto se faz ter em vista o seu bem supremo - isso leva mais longe do que as agitações e ações compassivas em favor de outros. Sem dúvida, todos nós sofremos ainda com a pouquíssima atenção dada ao que é pessoal em nós; ele está mal desenvolvido - confessemos que dele subtraímos violentamente nosso interesse, sacrificando-o ao Estado, à ciência, ao carente de ajuda, como se fosse a parte ruim, que tivesse de ser sacrificada. E agora queremos trabalhar para o próximo, mas apenas enquanto vemos nesse trabalho nossa vantagem suprema, nem mais, nem menos. Trata-se apenas de saber o que se entende por vantagem própria; justamente o indivíduo imaturo, não desenvolvido e grosseiro entenderá isso no sentido mais grosseiro."

"Irresponsabilidade e inocência. - A total irresponsabilidade do homem por seus atos e seu ser é a gota mais amarga que o homem do conhecimento tem de engolir, se estava habituado a ver na responsabilidade e no dever a carta de nobreza de sua humanidade. Todas as suas avaliações, distinções, aversões, são assim desvalorizadas e se tornam falsas: seu sentimento mais profundo, que ele dispensava ao sofredor, ao herói, baseava-se num erro; ele já não pode louvar nem censurar, pois é absurdo louvar e censurar a natureza e a necessidade. Tal como ele ama a boa obra de arte, mas não a elogia, pois ela não pode se não ser ela mesma, tal como ele se coloca diante das plantas, deve se colocar diante dos atos humanos e de seus próprios atos. Neles pode admirar a força, a beleza, a plenitude, mas não lhes pode achar nenhum mérito: o processo químico e a luta dos elementos, a dor do doente que anseia pela cura, possuem tanto mérito quanto os embates psíquicos e as crises em que somos arrastados para lá e para cá por motivos diversos, até enfim nos decidirmos pelo mais forte - como se diz (na verdade, até o motivo mais forte decidir acerca de nós). Mas todos esses motivos, por mais elevados que sejam os nomes que lhes damos, brotaram das mesmas raízes que acreditamos conter os maus venenos; entre as boas e as más ações não há uma diferença de espécie, mas de grau, quando muito. Boas ações são más ações sublimadas; más ações são boas ações embrutecidas, bestificadas. O desejo único da autofruição do indivíduo (junto com o medo de perdê-la) satisfaz-se em todas as circunstâncias, aja o ser humano como possa, isto é, como tenha de agir: em atos de vaidade, de vingança, prazer, utilidade, maldade, astúcia, ou em atos de sacrifício, de compaixão, de conhecimento. Os graus da capacidade de julgamento decidem o rumo em que alguém é levado por esse desejo; toda sociedade, todo indivíduo guarda continuamente uma hierarquia de bens, segundo a qual determina suas ações e julga as dos outros. Mas ela muda continuamente, muitas ações são chamadas de más e são apenas estúpidas, porque o grau de inteligência que se decidiu por elas era bastante baixo. E em determinado sentido todas as ações são ainda estúpidas, pois o mais elevado grau de inteligência humana que pode hoje ser atingido será certamente ultrapassado: então todos os nossos atos e juízos parecerão, em retrospecto, tão limitados e precipitados como nos parecem hoje os atos e juízos de povos selvagens e atrasados. - Compreender tudo isso pode causar dores profundas, mas depois há um consolo: elas são as dores do parto. A borboleta quer romper seu casulo, ela o golpeia, ela o despedaça: então é cegada e confundida pela luz desconhecida, pelo reino da liberdade. Nos homens que são capazes dessa tristeza - poucos o serão! - será feita a primeira experiência para saber se a humanidade pode se transformar de moral em sábia. O sol de um novo evangelho lança seu primeiro raio sobre o mais alto cume, na alma desses indivíduos: aí se acumulam as névoas, mais densas do que nunca, e lado a lado se encontram o brilho mais claro e a penumbra mais turva. Tudo é necessidade - assim diz o novo conhecimento: e ele próprio é necessidade. Tudo é inocência: e o conhecimento é a via para compreender essa inocência. Se o prazer, o egoísmo, a vaidade são necessárias para a geração dos fenômenos morais e do seu rebento mais elevado, o sentido para a verdade e justiça no conhecimento; se o erro e o descaminho da imaginação foram o único meio pelo qual a humanidade pôde gradualmente se erguer até esse grau de autoiluminação e libertação - quem poderia desprezar esses meios? Quem poderia ficar triste, percebendo a meta a que levam esses caminhos? Tudo no âmbito da moral veio a ser, é mutável, oscilante, tudo está em fluxo, é verdade: - mas tudo se acha também numa corrente: em direção a uma meta. Pode continuar a nos reger o hábito que herdamos de avaliar, amar, odiar erradamente, mas sob o influxo do conhecimento crescente ele se tornará mais fraco: um novo hábito, o de compreender, não amar, não odiar, abranger com o olhar, pouco a pouco se implanta em nós no mesmo chão, e daqui a milhares de anos talvez seja poderoso o bastante para dar à humanidade a força de criar o homem sábio e inocente (consciente da inocência), da mesma forma regular como hoje produz o homem tolo, injusto, consciente da culpa - que é, não o oposto, mas o precursor necessário daquele."    
                                                                 
                                                          
                                                 F. Nietzsche (Humano Demasiado Humano - 1878)





Moda moral de uma sociedade mercantil

"Por trás desse principio da atual moda moral: “As ações morais são as ações de simpatia para com os outros”, vejo dominar o instinto social do temor que assume assim um disfarce intelectual: esse instinto põe como princípio superior, o mais importante e o mais próximo, que é necessário retirar da vida o caráter perigoso que possuía outrora e que cada um deve ajudar nisso com todas as suas forças. É por essa razão que unicamente as ações que visam à segurança coletiva e ao sentimento de segurança da sociedade podem receber o atributo de “bom”! — Quão poucos prazeres devem desde logo ter os homens para consigo mesmos, para que tal tirania do temor lhes prescreva a lei moral superior, para que se deixem assim intimar sem contestação para não tirar ou desviar o olhar de sua própria pessoa, mas ter olhos de lince para toda miséria, para todo sofrimento dos outros! Com nossa intenção, impelida até o extremo, de querer aparar todas as asperezas e todos os ângulos da vida, não estamos no caminho certo para reduzir a humanidade até transformá-la em areia? Em areia! Uma areia fina, tênue, granulosa, infinita! É este seu ideal, ó heróis dos sentimentos simpáticos? — Entretanto, resta saber se porventura se serve mais ao próximo correndo imediatamente e sem cessar em seu socorro e ajudando-o — o que só pode ser feito muito superficialmente, a menos que se se torne penhora tirânica — ou fazendo de si mesmo algo que o próximo vê com prazer, por exemplo, um belo jardim tranqüilo e fechado que possua altas muralhas contra as tempestades e a poeira das grandes estradas, mas também uma porta acolhedora."

                                                                                F. Nietzsche (Aurora - 1881)





 


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Renascidos das Cinzas!


IV

"Por fim, para que o essencial não deixe de ser registrado: de tais abismos, de tal severa enfermidade, também da enfermidade da grave suspeita voltamos renascidos, de pele mudada, mais suscetíveis, mais maldosos, com gosto mais sutil para a alegria, com língua mais delicada para todas as coisas boas, com sentidos mais risonhos, com uma segunda, mais perigosa inocência na alegria, ao mesmo tempo mais infantis e cem vezes mais refinados do que jamais fôramos antes. Oh, como repugna agora a fruição, a grosseira, surda, parda fruição, tal como a entendem os fruidores, nossos “homens cultos”, nossos ricos e governantes! Com que malícia escutamos agora o barulho de grande feira com que o homem “culto” e citadino se deixa violentar por arte, livros e música até sentir “prazeres espirituais”, não sem ajuda de bebidas espirituais! Como agora nos fere os ouvidos o grito teatral da paixão, como se tornou estranho ao nosso gosto esse romântico tumulto e emaranhado de sentidos que o populacho culto adora, e todas as suas aspirações ao excelso, elevado, empolado! Não, se nós, convalescentes, ainda precisamos de uma arte, é de uma outra arte – uma ligeira, zombeteira, divinamente imperturbada, divinamente artificial, que como uma clara chama lampeje num céu limpo! Sobretudo: uma arte para artistas, somente para artistas! Nós nos entendemos melhor, depois, quanto ao que primeiramente se requer para isso, a jovialidade, qualquer jovialidade, meus amigos! também como artistas -: pretendo demonstrá-lo. Algumas coisas sabemos agora bem demais, nós, sabedores: oh, como hoje aprendemos a bem esquecer, a bem não-saber, como artistas! E no tocante a nosso futuro: dificilmente nos acharão nas trilhas daqueles jovens egípcios que à noite tornam inseguros os templos, abraçam estátuas e querem expor à luz, desvelar, descobrir, tudo absolutamente que por boas razões é mantido oculto. Não, esse mau gosto, essa vontade de verdade, de “verdade a todo custo”, esse desvario adolescente no amor à verdade – nos aborrece: para isso somos demasiadamente experimentados, sérios, alegres, escaldados, profundos... Já não cremos que a verdade continue verdade, quando se lhe tira o véu... Hoje é, para nós, uma questão de decoro não querer ver tudo nu, estar presente a tudo, compreender e “saber” tudo. “É verdade que Deus está em toda parte?”, perguntou uma garotinha à sua mãe; “não acho isso decente” – um sinal para os filósofos!... Deveríamos respeitar mais o pudor com que a natureza se escondeu por trás de enigmas e de coloridas incertezas. Talvez a verdade seja uma mulher que tem razões para não deixar ver suas razões? Talvez o seu nome, para falar grego, seja Baubo?... Oh, esses gregos! Eles entendiam do viver! Para isso é necessário permanecer valentemente na superfície, na dobra, na pele, adorar a aparência, acreditar em formas, em tons, em palavras, em todo o Olimpo da aparência! Esses gregos eram superficiais – por profundidade! E não é precisamente a isso que retornamos, nós, temerários do espírito, que escalamos o mais elevado e perigoso pico do pensamento atual e de lá olhamos para baixo? Não somos precisamente nisso – gregos? Adoradores das formas, dos tons, das palavras? E precisamente por isso – artistas?"         

                                                                           
F. Nietzsche (última parte do prólogo da obra “A Gaia Ciência” escrito em Ruta, próximo a Gênova no outono de 1886)