terça-feira, 12 de novembro de 2013

Assim Falava Zaratustra: acerca do último homem

V

Pronunciadas estas palavras, em silêncio, olhou outra vez o povo. “Ei-los aí, disse ao seu coração, ei-los que riem; não me compreendem; não sou a boca para tais ouvidos.

Será mister, em primeiro lugar, romper-lhes os tímpanos para que aprendam a ouvir com os olhos? Será preciso atroar os ares como os címbalos ou como os predicadores da Quaresma? Ou só acreditam eles nos tartamudos?

Há alguma coisa de que eles se orgulham. Como chamam, pois, a tal coisa de que estão orgulhosos? Chamam-na cultura, e é o que os distingue dos guardadores de cabras.

Não gostam de ser tratados com a palavra ‘desprezo’, por isso falar-lhes-ei ao seu orgulho.

Falar-lhes-ei do que há de desprezível: quero dizer do último homem

E Zaratustra falou assim ao povo:

“É tempo de que o homem visualize um objetivo para si.

É tempo de que o homem plante a semente de sua mais alta esperança.

Ainda é seu solo bastante rico. Mas um dia, pobre e avaro será ele, e, nele, já não poderá crescer nenhuma árvore elevada.

Ah! Aproxima-se o tempo, em que o homem não lançará mais a flecha de seu desejo acima dos homens, e em que as cordas de seu arco já não saberão mais vibrar.

Eu vos digo: é necessário ter um caos em si para poder dar à luz uma estrela bailarina. Eu vos digo: tendes ainda um caos dentro de vós”.

Ah! Aproxima-se o tempo em que o homem será incapaz de dar à luz uma estrela bailarina. O que vem é a época do homem mais desprezível entre todos, que nem poderá mais desprezar a si mesmo.

Vede! Eu vos mostro o último homem.

“Que é o amor? Que é o criar? Que é o aspirar? Que é a estrela?”

Assim perguntará o último homem, piscando os olhos.

A terra tornar-se-á insignificante, e, sobre ela, veremos saltitar o último homem que tudo amesquinhará. Sua espécie é indestrutível como a da pulga; o último homem é o que viverá por mais tempo.

- Descobrimos a felicidade – dizem os últimos homens, piscando os olhos.

Eles abandonarão as comarcas onde a vida for dura; porque terão necessidade do calor.

Amarão ainda o seu próximo, e se esfregarão uns aos outros; porque necessitarão de calor.

Adoecer, ter desconfiança, parecer-lhes-ão pecados; andarão com cautela.

Um pouco de veneno, uma ou outra vez; ele oferecerá sonhos agradáveis. E muitos venenos, afinal, para ter uma morte agradável.

Trabalhar-se-á ainda, por que o trabalho é uma distração. Mas procurar-se-á que a distração não fatigue.

Ninguém será rico nem pobre; são ambas coisas demasiado penosas. Quem quererá ainda governar? Quem quererá ainda obedecer? São ambas coisas demasiado penosas.

Nenhum pastor, e um só rebanho! Todos quererão o mesmo, todos serão iguais; e quem pensar diferentemente entrará voluntariamente num manicômio.

- Outrora todos eram loucos – dirão os malignos piscando os olhos.

Ser-se-á prudente, e saber-se-á tudo quanto já aconteceu: assim ter-se-á do que ridicularizar interminavelmente. Disputar-se-á ainda; mais rápidas serão as reconciliações, temerosas de alterar a digestão.

Ter-se-á seu prazerzinho do dia, e o seu prazerzinho da noite; mas se reverenciará a saúde.

- Descobrimos a felicidade – dirão os últimos homens, piscando os olhos.

Aqui acabou o primeiro discurso de Zaratustra – o qual também se chama o “prólogo” – porque neste momento foi interrompido pelos gritos e pela hilaridade da multidão.

- Dá-nos este último homem, Zaratustra – exclamavam – faz-nos semelhantes a esse último homem! E damos de presente para ti o Além-Homem.

E todo o povo exultava e estalava a língua. Zaratustra ficou triste e disse ao seu coração:

- Não me compreendem; não é a minha boca a boca de que necessitam esses ouvidos.

Vivi demasiadamente nas montanhas; escutei demasiadamente os arroios e as árvores, e agora lhes falo como se fala aos guardadores de cabras.

Plácida é a minha alma e luminosa como a montanha na manhã. Mas eles creem que sou frio, e me tomam por um sinistro farsante.

E, no entanto, eles me olham e riem; e, ainda, além de rir, odeiam-me e, enquanto riem, seguem odiando-me.

Há gelo em seus risos.