sábado, 15 de fevereiro de 2014

Assim Falava Zaratustra: Da Redenção

"Eu ando entre os homens como entre fragmentos do futuro: desse futuro que os meus olhares aprofundam.

E todos os meus pensamentos e esforços tendem a condenar e a unir numa só coisa o que é fragmento e enigma e espantoso azar.

E como havia eu de suportar ser homem, se o homem não fosse também poeta adivinho de enigmas e redentor do azar?!

Redimir os passados e transformar todo “foi” num “assim o quis”: só isto é redenção para mim.

Vontade! — assim se chama o libertador e o mensageiro da alegria: — eis o que vos ensino, meus amigos; mas aprendei também isto: a própria vontade é ainda escrava.

O querer liberta; mas, como se chama o que aprisiona o libertador?

“Assim foi”: eis como se chama o ranger de dentes e a mais solitária aflição da vontade. Impotente contra o fato, a vontade é para todo o passado um malévolo espectador.

A vontade não pode querer para trás: não pode aniquilar o tempo e o desejo do tempo é a sua mais solitária aflição.

O querer liberta: que há de imaginar o próprio querer para se livrar da sua aflição e zombar do seu cárcere?

Ai! Todo o preso enlouquece! Também loucamente se liberta a vontade cativa.

A sua raiva concentrada é o tempo não retroceder; “o que foi”: assim se chama a pedra que a vontade não pode remover.

E por isso, por despeito e raiva, remove pedras e vinga-se do que não sente como ela raiva e despeito.

Assim a vontade, a libertadora, tornou-se maléfica; e vinga-se em tudo que é capaz de sofrer, de não poder voltar para trás.

Isto, e só isto, é a vingança em si mesma, a repulsão da vontade contra o tempo e o seu “foi”.

Realmente vive uma grande loucura a vossa vontade; e a maldição de todo o humano é essa loucura haver aprendido a ter espírito.

O espírito de vingança – meus amigos, tal foi até hoje a melhor reflexão dos homens: e onde houve dor, deve sempre ter havido castigo.

“Castigo”: assim se chama a si mesma a vingança: com uma palavra enganadora finge uma consciência limpa.

E como naquele que quer há sofrimento, posto que não é permitido querer para trás, a própria vontade e toda a vida deviam ser castigo.

E assim se acumulou no espírito uma nuvem após outra, até que a loucura proclamou: “Tudo passa; por conseguinte, tudo merece passar!”.

“E aquela lei que diz que o tempo deve devorar os seus próprios filhos, é a mesma justiça”. Assim se proclamou a loucura.

“A ordem moral das coisas repousa no direito e no castigo. Ai! Como livrarmo-nos da corrente das coisas e do castigo da ‘existência’?”. Assim se proclamou a loucura.

“Como pode haver redenção, se há um direito eterno? Ai! Não se pode remover a pedra do passado: é mister que todos os castigos sejam também eternos!”. Assim se proclamou a loucura.

Nenhum fato pode ser destruído; como poderia ser desfeito pelo castigo? Eis o que há de eterno no castigo da “existência”: a existência deve ser uma vez e outra, eternamente, ação e dívida. “A não ser que a vontade acabe por se libertar a si mesma, e que o querer se mude em não querer.”. Mas, irmãos, vós conheceis estas canções da loucura!

Eu vos afastei delas quando vos disse: “A vontade é um criador”.

Todo o “foi” é fragmento e enigma e espantoso azar, até que a vontade criadora acrescente: “Mas eu assim o quero! Assim o hei de querer”.

Já falou, porém, assim? E quando sucederá isso? Acaso a vontade se livrou da sua própria loucura?

Porventura se tornou a vontade para si mesma redentora e mensageira de alegria? Acaso esqueceu o espírito de vingança e todo o ranger de dentes?

Então quem lhe ensinou a reconciliação com o tempo e a fazer o que é mais alto que qualquer reconciliação?

O que deve querer o querer, que é querer de potência, é querer qualquer coisa mais alta que uma reconciliação; mas como?

Quem o ensinará a querer até mesmo o retorno de tudo quanto já foi?

Neste ponto do seu discurso, Zaratustra deteve-se, como de súbito assaltado pelo terror. Contemplou os discípulos com olhos espantados: o seu olhar penetrava como setas nos seus pensamentos. Passado um momento, porém, tornou-se a rir e disse com serenidade:

“É difícil viver entre os homens porque é tão difícil uma pessoa calar-se. Sobretudo para um falador!”.

Assim Falava Zaratustra



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Livrai-nos!

Livrai-nos de ser escravos do que acreditamos, livrai-nos para amar o que acreditamos.

                                                                 Philip G. Mayer


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O Gênio do Coração

O gênio do coração, assim como o possui aquele grande dissimulado, o deus-tentador e nato pega-ratos da consciência, cuja voz sabe descer até o submundo de toda alma, que não diz uma palavra, não lança um olhar em que não se encontre uma consideração e um vinco de sedução, a cuja mestria pertence que ele entenda de aparentar – e não aquilo que ele é, mas aquilo que para os que o seguem constitui uma coerção a mais para se aglomerar sempre mais próximo em torno dele, para segui-lo sempre mais profunda e radicalmente – o gênio do coração, que a tudo o que é ruidoso e presumido faz emudecer e ensina a escutar, que alisa as almas ásperas e lhes dá de saborear um novo anseio – permanecer quietamente estendidas como um espelho para que o céu profundo nelas se reflita -; o gênio do coração, que ensina a mão apalermada e demasiado apressada a hesitar e a segurar mais graciosamente; que adivinha o tesouro escondido e esquecido, a gota de bondade e a doce espiritualidade sob o opaco e espesso gelo, e que é uma varinha mágica para todo grão de ouro que por longo tempo jazeu soterrado no cárcere de profusa areia e lama; o gênio do coração, de cujo contato cada um segue adiante mais rico, não agraciado e surpreendido, não como que beneficiado e oprimido por bondade alheia, porém mais rico de si próprio, mais jovem do que antes, desabrochado, bafejado e sondado por um vento tépido, talvez mais incerto, mais delicado, mais frágil, mais alquebrado, porém cheio de esperanças que ainda não têm nome, cheio de uma nova vontade e fluir, cheio de uma nova má vontade e refluir... mas o que faço, meus amigos? De quem vos falo? Foi tão longe meu esquecimento que nem sequer vos mencionei seu nome? A não ser que já tenhais adivinhado por conta própria quem é esse questionável espírito e deus, que de tal maneira quer ser louvado. Como ocorre a todo aquele que desde criança sempre esteve a caminho e no estrangeiro, assim também me ocorreu encontrar alguns estranhos e nada inofensivos espíritos, mas sobretudo aquele do qual acabo de falar, e repetidas vezes o encontrei, ninguém menos que o deus Dioniso, aquele grande ambíguo e deus-tentador ao qual certa vez, segundo sabeis, em meio a todo segredo e reverência, ofereci minhas primícias – na condição de último, segundo me parece, a lhe oferecer um sacrifício: pois não encontrei ninguém que tivesse compreendido o que fiz então. Nesse meio tempo acrescentei muito, muitíssimo, ao meu aprendizado acerca da filosofia desse deus, e, como já disse, de boca a boca – eu, o último discípulo e iniciado do deus Dioniso: e quem sabe eu finalmente devesse, meus amigos, dar-vos de provar um pouco, até onde me seja permitido, dessa filosofia? A meia-voz, como cabe: pois aqui se trata de muita coisa misteriosa, nova, estranha, singular, inquietante. Apenas o fato de que Dioniso seja um filósofo, e de que, portanto, também os deuses filosofem, parece-me uma novidade nada inofensiva e que talvez desperte desconfiança precisamente entre filósofos – entre vós, meus amigos, ela já tem menos contra si, a não ser que ela chegue muito tarde e fora do momento oportuno: pois, segundo me foi dito, hoje acreditais de má vontade em deus e deuses. Além disso, talvez eu deva ir mais longe na franqueza de minha narrativa do que sempre agrada aos hábitos severos de vossos ouvidos? Certamente o referido deus foi mais longe, muito mais longe, em diálogos semelhantes, e sempre estava muitos passos à frente de mim... Sim, eu lhe atribuiria segundo o uso dos homens, caso fosse permitido, belos e solenes nomes de pompa e virtude, teria de fazer muitos elogios à sua coragem de investigador e descobridor, a sua ousada retidão, veracidade e amor à sabedoria. Mas com todos esses veneráveis trastes e pompas um semelhante deus não sabe o que fazer. “Guarda isso”, diria ele, “para ti e teus iguais e para quem quer que o precise! Eu – não tenho nenhum motivo para ocultar a minha nudez!” – Adivinha-se: a essa espécie de divindade e filósofo talvez falte pudor? – Assim disse ele certa vez: “Às vezes amo o homem” – e com isso se referia à Ariadne, que estava presente -: “O homem é para mim um animal agradável, valente, inventivo, que não tem igual sobre a Terra, em todos os labirintos ele ainda encontra a saída. Sou bondoso para com ele: medito frequentemente em como levá-lo adiante e em como torná-lo mais forte, mais malvado e mais profundo do que é.” – “Mais forte, mais malvado e mais profundo?”, perguntei apavorado. “Sim”, disse ele mais uma vez, “mais forte, mais malvado e mais profundo; também mais belo” – e depois o deus-tentador sorrio o seu sorriso alciônico, como se tivesse acabado de dizer uma graça encantadora. Vê-se aqui, ao mesmo tempo: não falta apenas pudor a essa divindade -; e há em geral boas razões para presumir que em algumas coisas todos os deuses teriam a aprender conosco, os homens. Nós, homens, somos – mais humanos...    

                                     F. Nietzsche (Para Além do Bem e do Mal; aforismo 295)