quinta-feira, 29 de maio de 2014

Ética e Engenharia Genética

Já imaginou um mundo onde todos pudéssemos livremente programar como serão os genes de nossos filhos para fins de satisfazer nosso gosto pessoal ou “melhorar” os próprios genes com o objetivo de, por exemplo, aumentar nossa massa muscular ou altura para nos tornarmos mais competitivos em alguma modalidade esportiva? Esse mundo hipotético não é uma fantasia, ele só não é tão evidente ainda por circunstâncias meramente políticas e econômicas, mas a tecnologia já existe e floresce cada vez mais. 

Termos consciência de que todos somos até certo ponto responsáveis pelos nossos destinos é uma realidade que nos permite compreender, conviver e aceitar ao próximo, assim como nos solidarizarmos uns com os outros (pois haver o mistério no propósito da existência é o que também possibilita a escola de tolerância tanto de si quanto do outro). Num mundo hipotético onde todos pudéssemos reeditar e pré-programar a todo o instante por livre arbítrio o que nos é “dado” nos tornando assim totalmente responsáveis pelos nossos destinos (e a engenharia genética que já permite o melhoramento e a pré-programação de genes pode nos levar a essa nova realidade) seria um mundo onde não haveria mais espaço para a compreensão, tolerância e solidariedade humanas. Uma volta à barbárie ou uma invenção de uma nova e ainda mais aterradora.

Essa é uma conclusão que por enquanto faço após ler um primeiro livro muito bom que trata sobre esse assunto que há algum tempo já vem me assombrando e que indico a todos: “Contra a Perfeição – Ética na Era da Engenharia Genética” de Michael J. Sandel (filósofo, professor em Harvard e palestrante no Fronteiras do Pensamento). Pra se ter ideia da atualidade do assunto o próprio Sandel em seu livro não cansa de fazer perguntas de implicação ética ao leitor sobre prováveis problemas futuros que esse avanço científico pode trazer ou não. 

                                                                           Philip G. Mayer


sábado, 10 de maio de 2014

Cultura Faz Diferença

Não se abstrai a cultura do ser humano no fim de definir o que é um ser humano idealizando-o e reduzindo-o apenas às meras propriedades comuns a todos como, por exemplo, comer, dormir, etc. Um homem não sobrevive sem cultura (e provavelmente nenhum ser vivo sobreviveria pois tal suposição foge mesmo à lógica), e esta é que principalmente irá diferir não só em cada sociedade, mas também de indivíduo para indivíduo. Por outro lado, sendo a cultura algo inerente, porém mutável e flexível, não faltaram também ideólogos como religiosos, filósofos e políticos que imaginaram então a possibilidade de um mundo sem conflitos pela via de querer levar a humanidade em direção a cultivar uma só cultura no fim de igualar também esta propriedade para todos, via esta que na maior parte terminaram em barbáries como o nazismo por exemplo. Um dos grandes desafios éticos da atualidade é conciliar as propriedades inerentes ao conceito de homem (incluindo neste sua cultura), juntamente com o respeito e a consideração que merecem, sem idealizações que possam em algum patamar menosprezar quaisquer necessidades de manifestações dessas propriedades ou reduzir o conceito de ser humano a um mero ideal do que é tomado como inerente e comum a todos, pois considerar apenas esses fatores é fazer uma abstração de tantas necessidades mesmo insondáveis e de inúmeras percepções que definitivamente isso não traduz e não da conta de nenhuma realidade, que dirá ainda de alguma “verdade”. Aliás, diria que ao se tratar de realidade humana, abstrair características para definir o que é humano e o que não é vestindo nisso uma roupagem de “verdade” (e muito como de costume popular misturando também junto a isso “bondade” em oposição a um “mal”) é a primeira porta aberta para o fascismo. 

                                                                       Philip G. Mayer