sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Deuses, ateus, matemática e a vida boa...


Gostei bastante dessa animação, mas diria que ela só não foi plenamente feliz por um detalhe: a tal “verdade” que não obedece fronteiras como a suposta matemática que nos Estados Unidos 2+2 são 4 assim como na Índia também, é tão igualmente às diversas concepções de deus, um ideal abstrato na forma de fenômeno social que, porém, apenas tiranizou mais facilmente pelo mundo. A matemática também é uma contemplação sobre o fenômeno da realidade que abstrai e isola partes desse fenômeno (não é o mundo que se fragmenta em matemática, mas a matemática que viabiliza fragmentar o mundo), visando possibilitar nele intenções e por consequência ações de modificação afim de satisfazer o interesse que for, ela é apenas mais um recurso de transformação da realidade e, portanto, não se trata de nenhuma "verdade" ou se quer um meio pelo qual chegar-se-ia a uma “verdade”. Mas, como já dizia o professor e filósofo Clóvis de Barros Filho, o mundo está cheio de tiranos, pessoas que fazem questão que todos concordem com elas, que exigem que todos vejamos a mesma coisa do mesmo jeito e na mesma perspectiva; e eu complementaria isso dizendo que há pessoas que se utilizam de recursos de transformação da realidade que poderiam visar e servir à vida boa como sim, um suposto “caminho” pelo qual se chegaria a uma “verdade” no qual esta abarcasse algum valor moral superior, não só pela matemática, mas por intermédio também de todas as formas de ciência, religião e filosofia usufruindo assim desses recursos como instrumento de poder de um determinado indivíduo ou classe sobre outros indivíduos ou classes. O mundo é um caos, e sempre o será (graças a “deus”!), o que posso contribuir da minha visão mais particular e sempre como mais um recurso a ser disponibilizado o seu uso para um ideal de vida boa, é que diferentemente do que propõe o personagem ateu no vídeo, a vida possa ser um constante olhar crítico sobre as diversas formas de conceber a “realidade” que criamos ou tomamos conhecimento, nos mantendo sempre alertas no que concerne até que ponto tais formas nos satisfazem momentaneamente servindo à nossa circunstância psicossocial; que ela também seja a necessidade de compreendermos e transfigurarmos realidades a priori inevitáveis ("sacrifícios"?) assim como decidirmos o que nos é mais proveitoso usufruir ou até mesmo nos deixar dominar. E que para além dessas possibilidades ela ainda também seja a guerra, pois ela tem o seu tempo em que se faz necessária, e será! Nesse mundo que sempre foi e será o caos das constantes mudanças. Ora, mas o que eu falo? Que para ser possível a vida boa é necessário por vezes que também sejamos filósofos!

                                                                          Philip G. Mayer


"Deixemos pois de pensar mais em punir, em censurar e em querer melhorar! Não seremos capazes de modificar um único homem; e se alguma vez o conseguíssemos seria talvez, para nosso espanto, para nos darmos também conta de outra coisa: é que teríamos sido nós próprios modificados por ele!"

                                                                
                                                                   F. Nietzsche - (A Gaia Ciência)


            

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O Sentido do Mundo


Por muito tempo (principalmente desde Kant) acreditamos que as nossas intenções fossem soberanas e livres, espécie de semideuses a arbitrarem pelo mundo e a se transmutarem em fenômenos no mundo. Gradativa e muito lentamente, passamos a compreender que no mínimo em tão igual vontade oposta, todo o mundo dos fenômenos também formula e constrói nossas ingênuas intenções que querem tanto se alçar à arrogante soberania moral. Realmente, como pudemos ser por tanto tempo tão ingênuos?... E se essa vontade oposta também fosse uma diversidade de quaisquer outras intenções a quererem se impor cada uma na forma de fenômenos “contra” nós? E se no final das contas dentre todas as coisas cada uma tivesse uma inteligência a intencionar fenômenos no mundo e então o universo não passasse apenas de um gigantesco e eterno campo de batalhas onde cada parte luta incessantemente por expressar a sua individualidade? Ora, e não é isso? E então como poderia haver qualquer “fim” para a humanidade? Como teria de haver um “destino” para todas as coisas? Como haveria qualquer “ponto de chegada”? E por consequência, “ponto de partida”, “evolução”, graus ou níveis de algum “caminho certo” que convergiria para qualquer suposto lugar imutável e satisfatório? Ora, justamente por crermos em alguma direção que as coisas teriam de tomar, algum destino onde todos teríamos de descer juntos ao final dessa viagem onde a carruagem nunca teve qualquer rumo e sempre foi livre para seguir, que então facilmente nos tornamos tiranos uns dos outros, pois cria-se aí toda a gama de valores dicotômicos como bem, mal, superior, inferior, etc. A comparação entre duas coisas afim de estabelecer qualquer dicotomia de valores como, por exemplo, X´ ser superior a X´´ que por sua vez é inferior torna-se possível somente via estabelecimento sempre de um terceiro elemento posto em jogo para referência das partes comparadas sendo este terceiro elemento sempre estabelecido ainda a partir de uma intenção de qualquer outra parte, e portanto sempre estando a mercê de ter suas propriedades já no princípio inclinadas "injustamente" a favor de qualquer uma das partes comparadas, permanecendo indiferente que isso seja ou não compreendido posteriormente. Nenhuma referência para comparação surge de algum "mundo metafísico", mas sempre desse mundo daqui mesmo, pois é elaborada por uma parte desse mundo, que intenciona a referência influenciado por todos os fenômenos desse mundo mesmo, a justiça naquele ideal platônico não existe! Inevitavelmente, mesmo por detrás de tenros olhares amorosos, se elaboramos qualquer destino último para a humanidade, ainda exigimos que o outro tenha de “ir por aqui”, e se mesmo assim não o faz, no mínimo em alguma forma circunscrita na moral ainda o consideraremos inferior. Ao negarmos toda presunção tirânica por parte das religiões, das ciências e qualquer modelo mental de prescrever um “fim”, “início”, “meio”, “nível”, “caminho”, em suma, qualquer forma de “direção” para as coisas do mundo, chegamos à própria nulidade do que é o sentido da existência, muito mais descritiva, que indutiva: uma massa infindável e indeterminada de força atemporal e inespacial onde tudo quer obter o seu direito de existir. Tudo quer expressar-se! E por fim, o que seriam então os fenômenos em definitivo? Quem o poderia dizer se isso também não seria querer intencionar qualquer significado para eles, sendo todas as intenções mesmas geradas por eles mesmos, os fenômenos? Tudo é fenômeno, e tudo também é intenção ou, na linguagem nietzscheana, vontade de poder. Aliás, Nietzsche já havia esboçado tal conclusão em seu último aforismo da sua obra póstuma síntese de toda sua filosofia “A Vontade de Poder”:

“Sabeis vós também o que é para mim “o mundo”? Devo mostrá-lo em meu espelho? Este mundo: uma imensidão de força, sem começo, sem fim, uma firme, brônzea grandeza de força, que não se torna maior, não se torna menor, não se consome, só se transforma e, como um todo, é de imutável grandeza, um orçamento doméstico sem gastos e sem perdas, mas, do mesmo modo, sem crescimento, sem ganhos, encerrado pelo “nada” como por seu limite, nada que se desvaneça, nada desperdiçado, nada infinitamente extenso, mas sim, como força determinada, posto em um determinado espaço, não em um lugar que fosse algures “vazio”, antes como força em toda parte, como jogo de forças e ondas de força, ao mesmo tempo uno e vário, acumulando-se aqui e ao mesmo tempo diminuindo acolá, um mar em forças tempestuosas e afluentes em si mesmas, sempre se modificando, sempre refluindo, com anos imensos de retorno, com vazante e montante de suas configurações, expelindo das mais simples às mais complexas, do mais calmo, mais inteiriçado, mais frio ao mais incandescente, mais selvagem, para o que mais contradiz a si mesmo e depois, de novo, da plenitude voltando ao lar do mais simples, a partir do jogo das contradições de volta até o prazer da harmonia, afirmando a si mesmo ainda nessa igualdade de suas vias e anos, abençoando a si mesmo como aquilo que há de voltar eternamente, como um devir que não conhece nenhum tornar-se satisfeito, nenhum fastio, nenhum cansaço -: este meu mundo dionisíaco do criar eternamente a si mesmo, do destruir eternamente a si mesmo, este mundo misterioso da dupla volúpia, este meu “além de bem e mal”, sem fim, se não há um fim na felicidade do círculo, sem vontade, se não há boa vontade no anel que torna a si mesmo – vós quereis um nome para este mundo? Uma solução para todos os seus enigmas? Uma luz também para vós, ó mais esconsos, mais fortes, mais desassombrados, mais ínsitos à meia-noite? Este mundo é a vontade de poder – e nada além disso! E também vós mesmos sois essa vontade de poder – e nada além disso!” – (F. Nietzsche)

Ora e não é isso? E nada mais, além disso!

                                                                           Philip G. Mayer