quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Caos!

Tudo que vemos, tudo que nos rodeia, tudo que somos, é caos! A terra é caos, a matéria é caos, o espaço é caos. Mas então alguém poderia lançar a pergunta: como pode tudo ser caos se podemos perceber certas leis da lógica, padrões de repetição e ordens hierárquicas na natureza? Ora, tais propriedades que percebemos no todo é apenas o quadro que inferimos e que se apresenta nesse dado instante do caos em constante mutação, quem garante que todo esse quadro já não foi diferente em épocas atrás e já se apresentou das formas mais inconcebíveis possíveis à reles imaginação humana? Tanto nos seus aspectos e repetições quanto ordens hierárquicas?... E desse instante que estamos em meio a essa infinita mutação da matéria que é o próprio tempo sem começo e nem fim e da qual toda lógica e hierarquia depende, encaminhamo-nos então rumo igualmente a outras tantas formas, aspectos e hierarquias futuras do todo, podendo mesmo especularmos se daqui a um sem número de anos não poderíamos estar presentes por acaso até justo no exato quadro de realidade em que nos encontramos agora.

                                                                              Philip G. Mayer


Crença e Bem Estar

Meu interesse principal no ser humano não é exatamente saber no que deveríamos crer, penso que cada indivíduo possa acreditar no que bem lhe convir onde preencha sua vida de significado. O meu interesse é saber em como se dá o nosso bem estar fisiológico quando justo isso é um efeito da relação que estabelecemos com a crença, ou seja, o que me interessa saber é até que ponto dominamos nossa crença ou é a crença que nos domina. Se algo que acreditamos escraviza a possibilidade de qualquer outra hipótese se não aquilo que se crê, então daí decorre todo o mal estar interior e por consequência exterior do homem consigo mesmo e na sua relação com o outro. O escravo do que crê não concebe a possibilidade da sua ideia poder vir a cair por terra algum dia ou simplesmente se extinguir pelo fim da sua necessidade, ele não a toma como um efeito das observações acerca do seu bem estar, mas como causa fundamental e única para ele; ele não a toma como um meio e/ou fim
do seu bem estar, mas a formula já crendo num critério primeiro de que essa condição pessoal não deve entrar aqui em questão... Crê inconscientemente que valorar uma ideia (seja ela de mundo ou não) onde ela tenha referência no seu próprio bem estar seria uma atitude egocêntrica e interesseira onde se blasfemaria contra um suposto espírito filosófico "digno"... Ora, mas isso ainda é um resquício da velha hipocrisia moral judaico cristã defensora de um propósito divino metafísico que divide a massa coletiva dos homens entre bons e maus... Pois todas nossas condutas analisadas sob o mais profundo olhar independente de nossas crenças inexoravelmente tem os seus fins últimos no ganho de um bem estar pessoal, seja ele fisiológico ou no espectro da moral (que por sua vez traz consequências fisiológicas). Baseado em que critérios alguém argumenta que as condutas humanas deveriam ser indiferentes a essa pessoalidade? Aliás, como isso seria possível? Em suma, voltamos à velha e conhecida questão que permanece: por que o sacrifício do bem estar individual, o desprezo do eu em nome da satisfação de um ideal construído? Com isso não quero dizer que os ideais (ideias) devem ser negados, ou então estaria defendendo a extinção da nossa própria consciência psíquica ou capacidade de pensar que se dá a partir da percepção dos fenômenos e, portanto, da idealização (representação) deles; mas o que quero dizer é: deveríamos compreender que independente das intenções de nossas crenças, formulações e condutas, há um fator fim que sempre estará presente
junto, a finalidade de um bem estar interior. Tal finalidade deveria ser novamente posta no centro das discussões tanto na forma de causa assim como também efeito a cada vez que se quer investigar uma “explicação” para algo, somente assim aniquila-se a má consciência consequente da hipocrisia de se ansiar um discurso “verídico” independente do estado momentâneo das energias vitais de quem discursa, pois é a partir do próprio estado dessas energias que o discurso é formulado. Finalmente, é imprescindível que eu deixe claro o que quero dizer com “explicar algo”: “explicação” na intenção de que a lógica ou significado de algo sejam as únicas possíveis e válidas de se perceber; “explicação” na intenção de que a inferência que um indivíduo dá a um fenômeno seja ela unicamente possível e, portanto, supostamente indiferente do estado psíquico, fisiológico (e se quiserem até metafísico) do sujeito que “explicou”. Ora, logo se vê que a “explicação” é um bom artifício de poder tirânico de um indivíduo sobre outro, pois o fenômeno “explicado” permanece intacto e incógnito para todos os olhos que intencionam revelá-lo. Posto que os fatores que formam e influenciam um indivíduo são incalculáveis tanto na intensidade que agem quanto na diversidade que se fazem presentes em cada ser humano, nunca algo foi “explicado”! Mas no máximo descrito por alguém em determinado estado vital... Quanto maior a necessidade de se buscar uma “explicação” para todas as coisas, maior é o perigo de tornar-se acrítico e consequentemente tirano sobre os outros. A postura crítica sobre o mundo não é um atributo de quem busca a “verdade” sobre os fenômenos, mas como eles agem no bem estar dos indivíduos. Cada vez que explicamos algo não revelamos nada sobre a coisa em si, mas apenas sobre nós mesmos em determinado estado de nosso ser. 

                                                                               Philip G. Mayer


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

15 de Outubro de 2014, Aniversário de F. W. Nietzsche - 170 Anos de Amor Fati

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 - 1900)

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Da Homofobia

Ninguém nunca falou que uma nação vai ao encontro da sua maturidade cultural sem que se tenha de passar pela dor dos que demandam mais tempo para compreender as inexorabilidades da vida como ela é... E considero “maturidade cultural” a compreensão cada vez maior da vida como ela é nas suas inexorabilidades. Gays sempre existiram, existem e sempre existirão. A natureza homossexual é vista até mesmo em outras espécies animais e não somente a humana. Que eu sempre soube ninguém aprende a ser gay, simplesmente se é ou não se é. E inclusive mesmo que se pudesse aprender ou desaprender, por que não deveríamos também respeitar assim como aprendemos a respeitar o músico que escolheu sê-lo por ter se identificado mais na prática musical? Ou alguém um dia determinou regras desde o início para o que cada um deveria conduzir sua vida pelo resto da vida? O que se pede não é que se seja acolhedor com um gay que resolve dar em cima de você que é hétero, ou então pela mesma lógica teríamos também de exigir das mulheres que elas sejam acolhedoras com todos os homens que resolvem dar em cima delas e o mesmo valeria para os homens com todo o tipo de mulher que resolve dar em cima deles. O que se pede é a compreensão de que sim, há gays que podem dar em cima de você, e por quê? Ora, porque no mundo em que tu vives também inexoravelmente existem gays! Mas isso não quer dizer que você vai ter que virar gay quando um gay der em cima de você, mesmo se te fosse possível “virar” gay! Ademais não é nem por aí que ronda o espectro do debate: não se pede a supremacia da minoria LGBT sobre a maioria hétero (apesar da falta de clareza retórica por parte de alguns movimentos LGBTs parecerem querer isso, e é aí que acho indispensável a prevalência do senso crítico), o que se pede é a inclusão no respeito moral de direito de existência onde não pode haver o espaço para a hipótese “fulano tem um problema, ele é gay”. O problema é que nunca “ser gay” foi um problema! Ser músico é um problema? Não. Ser médico é um problema? Não. Ser deficiente é um problema? Não. Ser assassino é um problema? Em si não, apesar de que ser um envolve. Quem põe fim ao direito de se ser assassino não é propriamente o assassino (esse até pode pôr ou não), mas é quem lhe tira o direito de ser assassino. O mesmo vale para gays? Errado. Eu te pergunto: o que um gay ameaça na tua integridade? Se ele te ameaça em alguma coisa eu recomendo a dica do Drauzio Varella: procure um psiquiatra, você tem problemas. O que um assassino ameaça na tua integridade? Se ele te ameaça em alguma coisa eu recomendo que você procure a polícia porque é o assassino que deve ter problemas, não você! Falo essas coisas hoje porque eu admito que também tive de compreender tais sutilezas com o tempo, não cultivo a hipocrisia de achar que sou soberano para pensar o que “sempre” deveria ter sido o certo no mundo julgando-me independente do processo histórico, da formação da minha psique e circunstância social que estou inserido. Tanto eu quanto tu brasileiro estamos inseridos em uma sociedade que ainda expressa intolerância aos LGBTs, e sim somos influenciados por essa intolerância que nos rodeia. Façamos o possível para nosso amadurecimento, pois isso não atinge somente aos LGBTs, mas a toda a sociedade que por intermédio de construções morais equivocadas provindas do preconceito infundado criam obstáculos psíquicos que propiciam o surgimento de um ressentimento moral (onde se abre então o espaço para a descarga de expressões homofóbicas) e põe em perigo a integridade inclusive física dos LGBTs. “Mais um modelo niilista que nega a vida real em prol de um idealismo raquítico de como as coisas “deveriam ser” - é o que provavelmente diria Nietzsche sobre o moralismo homofóbico sustentado sobre bases imorais (a moral que não resiste diante da pergunta “por quê?”), inclusive daqueles que dizem que o patrocínio dos direitos LGBTs seria algo antinatural pois dois gays não podem gerar um filho... como se também aí houvesse um destino “certo” para o curso da natureza onde ela somente “deve” dar a luz novos descendentes... como se nós mesmos, partículas da humanidade, em nome de um modelo de mundo fôssemos deterministas sobre o que julgamos no que deve ser o destino de todos os indivíduos... Resquícios de um tempo em que ainda se acreditava na “salvação da humanidade” e que se descobriu que no fundo eram mais os “salvadores” que tinham que tratar de se salvar... Concluindo, penso que as coisas vêm em conjunto, tanto o preconceito desnecessário que criamos quanto o mal que ele mesmo nos causa, portanto, tratemos de cuidar do nosso próprio buraco e que cada um possa fazer do seu o que bem entender. E a humanidade? Vai bem, obrigado.   

                                                                        Philip G. Mayer