quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O Moderno Romântico Pós-moderno

    Fenômenos da nossa pós-modernidade: a democratização da informação cada vez maior faz com que o pensamento dogmático hoje seja transposto para a esfera religiosa tornando-se um assunto de cunho pessoal ou então descambando inevitavelmente para mera tentativa brega de “revelação”. Por outro lado, o sujeito agora é cético em relação a qualquer método que se desenvolva para constatar verdades, seja ele qual for. Mas o que esse sujeito percebe (e na maioria das vezes de forma um tanto romântico abstrata) é o que ainda ele quer que seja uma lei impessoal, devendo valer a todos, e se questionado quais critérios se utiliza para dizer o que diz, se enfurece. Sim, pois na medida em que é necessário averiguar as premissas que se toma para pronunciar a natureza da realidade é inevitável que também se tenha de questionar o sentido do próprio método que se está utilizando colocando a si próprio como objeto de estudo no fio da navalha, e constatando o quão é extremamente fácil permanecer igualmente religioso como um típico moderno do século XIX. 

                                                                          Philip G. Mayer 


domingo, 16 de agosto de 2015

Cuidado! Um inimigo passou para o teu lado!

    Na ética, quando defendemos princípios de conduta, isso quer dizer que estamos defendendo um conjunto de valores que acreditamos que se o ser humano os seguisse ele passaria a viver melhor, esse é o tipo de ética chamada “deontológica”, isso é, aquela que confere o valor de uma ação na sua intenção, e não na sua consequência. Um exemplo de deontologia que coroou a modernidade é a ética de Kant (o valor de uma ação finca-se na intenção do agente em satisfazer as necessidades universais na posição de um legislador universal. Ou, dito aqui de forma pragmática, a ação boa para Kant é aquela que, após estarmos suficientemente informados sobre o que é necessário fazer para que todos possamos viver melhor, buscamos cumprir tal função que possui seu fim no bem estar da humanidade). Éticas que valorizam a ação na sua consequência são chamadas éticas “consequencialistas” como é o caso do “utilitarismo” (o valor da ação encontra-se no quanto ela é capaz de produzir felicidade para o maior número de pessoas possível) ou o “pragmatismo” (o valor de uma ação encontra-se no que ela produz de resultado prático no mundo). Muito bem, quando postulamos princípios éticos levando em conta o modo deontológico da ética, é bom observarmos aqueles que não nos apoiam em tais princípios, estes estarão nos informando sobre o que é que se trata propriamente aquilo de que nós não concordamos e/ou estamos atacando. Do mesmo modo, é bom observarmos aqueles que nos apoiam em tais princípios, estes estarão nos informando sobre o que é que se trata propriamente aquilo de que estamos defendendo. Precisamente neste segundo caso é que pode advir uma sutileza que nem sempre é de conhecimento natural da nossa parte. Não se trata de estratégia inimiga, mas é mais profundo que isso e vale a atenção:

    As pessoas são o espelho das nossas concepções éticas. 

    - Procure sempre observar quem se posiciona ao teu lado, pois esse perfil tem o poder de apoiar a ti até mesmo naquilo em que pra ti pode não ser de consciência imediata, mas que também se faz presente dentro de ti constituindo o que defendes sob alguma outra perspectiva talvez inconveniente! Perspectiva que se faz presente em um recanto obscuro da inconsciência onde somente a visão de um outro poderia reconhecer. E esse elemento inconsciente pode ser justamente o fator causa que encanta o perfil que te apoia! É exatamente nesse momento que em alguma situação podes te surpreender contigo mesmo ao levar um susto no notar determinado perfil de pessoa que tinhas pra ti como antiética te apoiando no que dizes. É o autoconhecimento por intermédio do outro que aflorou em ti. Viste alguém te apoiando no que dizes, mas para tua surpresa não compartilhavas em nada quaisquer concepções éticas com esse perfil em que eram claras as divergências entre o que ele e tu defendiam até então. É esse perfil que te fará remeter a ti mesmo e questionar ainda mais uma vez o que é realmente que estás querendo dizer no que tange ao resultado pragmático do que defendes.    

                                                                          Philip G. Mayer


 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Sobre Deus e a Razão

    Deus existe? Se o concebemos de alguma maneira então ele existe, mas até que ponto ou de que forma ele influenciaria nossa realidade? Aí depende da maneira como nos relacionaríamos com ele e, particularmente falando, a minha resposta para esta segunda pergunta é: se Deus existe ou não, atribuir a ele alguma influência sobre o mundo por algum meio lógico é uma tarefa simplesmente impossível. Portanto, de que forma me considero um agnóstico? Tenho amigos religiosos que certamente já devem ter pensado de mim: "o Philip é um materialista que ama as coisas do mundo", como se as coisas do mundo ou suas supostas essências fossem o que são na eternidade do tempo “coisas em si”. Ledo engano, não amo as coisas do mundo, pois se não andaria apavorado com a fugacidade própria delas, não acredito em "coisas" nem em "essência de coisas", tudo isso é fugaz, de permanência totalmente inverificável. Amo, isso sim, é o mistério das coisas do mundo, no que a cada instante uma coisa se resoluciona com a certeza de sua instabilidade característica e eterna no universo. Essa noção do real por si só já me preenche inteiramente a tal ponto que se torna indiferente a mim conceber que haveria ou não alguma força diversa de tudo que condicionaria toda essa nossa realidade insondável.

    Ao contrário, essa vontade de que tenha de existir uma força do tipo é que me parece uma falta de compreensão do mundo em que estamos que se traduziria em ou o indivíduo querer livrar-se das dores dele mediante a esperança, o que o torna covarde para melhorar a condição de sua vida enquanto a tem, ou então querer controlar totalmente as resoluções das coisas no mundo a fim de vagar pela terra mais tranquilamente; duas tarefas que possuem em comum a negação da realidade que nos cerca. Se por meio da imaginação podemos vislumbrar uma metamorfose rápida das coisas na superfície da terra e assim julgar que é praticamente automático entender que haveria uma força externa condicionante dessa metamorfose, tomamos então a postura arrogante e ingênua de conceber que tudo se transforma, menos o observador, isso é, nós que observamos de fora da realidade essa transformação das coisas dispostos em um lugar em que realmente somente um Deus poderia estar. A vontade de que tenha de existir Deus como uma força causal e condicionante de todas as coisas no fundo não passa de uma vontade propriamente de ser Deus. 

    Por outro lado tem-se também a concepção de Deus como um causador condicionante absoluto de toda a realidade permanecendo ele mesmo um mistério insondável pela nossa razão lógica, de modo que ao constatarmos a cada passo a falseabilidade da razão nos restaria unicamente a fé no criador e controlador de todas as coisas. Que a razão tenha sido falseada pelos tempos e que não tenhamos muita esperança e nem sentido em tentarmos elabora-la de forma mais perene isso também é um fato, mas de modo algum isso tornar-se-ia uma justificativa para que a abandonássemos em prol de cultivar uma fé pura e cega num divino misterioso em que não nos caberia sequer saber suas intenções para nós e o mundo. Portanto, o que é preferível, a fé cega em uma força (ou forças) infinitamente misteriosa ou a tentativa, mesmo que falha, de construir um mundo melhor no continuum da vida por intermédio de nossa razão enquanto a possuímos em vida?

                                                                           Philip G. Mayer 


quarta-feira, 15 de julho de 2015

Conhecimento Atrela Moral

    O conhecimento sobre a realidade é uma construção cujo os alicerces se constituem em uma crença ou um conjunto de crenças (paradigma). Quando um conhecimento teórico é posto em prática ele necessariamente atrela junto a si uma conduta moral (o livre arbítrio entre poder optar por realizar esta ou aquela ação). Sistemas teóricos que visam descrever nossa realidade podem fornecer uma visão de mundo maravilhosa e instigante que nos convida a agir a partir daquilo que tomamos como conhecimento verdadeiro, é exatamente aí que descobrimos então o quanto que uma crença sobre a realidade (e aqui incluo as ciências além da religião, do espiritismo e qualquer outra filosofia que almeje uma descrição verídica do que é o real) torna-se perfeitamente uma justificativa para os atos mais bárbaros do ser humano. Costumo dizer que o problema existencial mais grave do homem não é de natureza epistemológica, mas sim ética, viver bem ou cada vez melhor esta muito mais relacionado com a forma em que lidamos dia a dia com nós mesmos e o outro do que com algum conhecimento em que poderíamos confiar ser mais verdadeiro. 

                                                                                Philip G. Mayer


segunda-feira, 27 de abril de 2015

Duas Visões

    Há uma visão que diz o seguinte: aquilo que há de sumamente bom e sumamente mau estão ambos fora do mundo, dispostos em uma realidade metafísica, são dois entes independentes entre si e do mundo, mas que agem no mundo. A partir dessa visão o homem adquire felicidade quando busca o que há de sumamente bom e nega o que há de sumamente mau. Mas há uma outra visão, e que ao meu ver é bem mais realista, que diz o seguinte: tudo que há de bom e mau estão ambos no mundo, são dois entes intimamente dependentes e complementares entre si e não só agem mas também são o próprio mundo incluindo nós mesmos. A partir dessa visão o homem adquire felicidade quando busca o que há de bom e compreende que o que há de mau faz parte nessa busca como um desafio aceito e necessário, haja vista que ao fazer parte do mundo, se o mau é negado então nós é que optamos ir ao seu encontro inevitavelmente, apenas por negar os desafios que o que é bom nos exige aceitar e vencê-los.

                                                                       Philip G. Mayer



                                                           

sábado, 18 de abril de 2015

"Ensaio Sobre a Cegueira" - Uma Crítica

A crítica abaixo é a segunda parte de um trabalho sobre o livro de Saramago que entreguei no curso de filosofia (a primeira é apenas o resumo da obra). Ao terminar de escrever essa crítica sobre o livro achei que ficou bastante boa para compartilhar por aqui seguindo a fórmula do Prof. Clóvis de Barros Filho o qual admiro muito e o tenho como grande inspirador: “se você vai ter que conviver com você mesmo até o fim da sua vida, é bom que se encante com o que faz”.
  
Boa leitura! 

Sentado em um restaurante pouco antes de escrever o “Ensaio Sobre a Cegueira”, a pergunta que passou por acaso pela cabeça de Saramago e que então lhe renderia um livro inteiro foi: “e se nós fôssemos todos cegos?” sendo que a resposta também já lhe viria imediatamente: “mas nós estamos todos cegos!”. Ao retratar ambientes onde todos estão cegos, o “Ensaio Sobre a Cegueira” é uma obra que mostra assim a deficiência e o vazio dos fundamentos éticos que elaboramos com o intuito de mostrarem-se efetivos para todas as situações cotidianas. Quando estamos cegos, não vemos ao outro, é necessário, portanto, confiar no outro, e nessa confiança necessária acabamos forçosamente por ter de virar nossa percepção primeiramente para nós mesmos. Ao ter de confiar no outro antes é necessário esclarecer dentro de si próprio o que se seria capaz de fazer sabendo que o outro está incapacitado de reagir como poderia e então na consciência disso poder também se precaver de possíveis atos maldosos por parte dos outros contra nós. Mais ainda, na trama de Saramago, quase todos ali (com exceção de uma mulher) estão cegos; ali cegos se relacionam com cegos, cegos buscam novas formas de poderem confiar um no outro, e de assegurarem tal confiança da melhor forma que puderem.

Em meio a esse cenário desolador há a mulher do médico, a única que não cegou, a única que vê num mundo de cegos, apenas muito depois ela conta ao seu grupo que enxerga, mas antes na quarentena tem de ficar calada, pois se todos na sua volta soubessem que ela via certamente seria cobiçada pela sua capacidade para ter de servir e ajudar a todos consumindo-a até a exaustão (e provando que não necessariamente “em terra de cego quem tem olho é rei”). A mulher do médico por enxergar em um mundo onde todos já estão cegos e onde todos já sabem que todos estão cegos, acaba por testemunhar cenas que revelam a fragilidade do ser humano nas suas múltiplas facetas, seja no seu questionamento e descaso pela higiene e pela estética própria, seja pelas suas condutas íntimas que agora perdem a vergonha, seja pelas condutas indecorosas em relação ao próximo, etc; a mulher do médico vendo essa realidade e não podendo fazer nada em relação a ela (pois caso contrário revelaria que vê e seria cobiçada por todos talvez até a morte) revela em sua figura talvez o grau máximo e a tensão da discrepância de visões sobre a realidade que cada um pode ter e, portanto, da perda total de uma possibilidade em constituir uma ética mais efetiva em prol de uma coletividade. Ainda sobre a mulher do médico, há uma passagem no livro que para mim foi a mais espetacular e quero relatar aqui: quando a mulher está na igreja com seu marido e todos na sua volta estão cegos além de todas as imagens da igreja estarem pintadas de branco na altura dos olhos e também todas as estátuas de santos incluindo o próprio Cristo estarem com vendas brancas nos olhos ela finalmente diz ao seu marido: “cada vez irei vendo menos, mesmo que não perca a vista tornar-me-ei mais e mais cega cada dia porque não terei quem me veja", sobre essa passagem que fala por si só não há o que comentar acerca da extrema veracidade, terror e beleza artística que expressa.

Em um mundo onde todos estão cegos como o autor retrata vão se revelando indelevelmente os afetos e as condutas oprimidas da natureza humana, afetos e condutas que antes devido aos olhos poderem enxergar os outros parecem que “não precisavam” enxergar ao seu próprio possuidor. Nesse sentido, Saramago nos denuncia e alerta com essa magnífica obra que se não estamos todos cegos para ver o outro, estamos sim todos cegos para ver a nós mesmos. Cuidamos dos outros, não cuidamos de nós mesmos, fiscalizamos os outros, não fiscalizamos a nós mesmos, somos capazes de tecer o exame mais completo sobre tudo em relação ao outro e ditar uma por uma as correções que o outro deve fazer, mas é interessante perceber que em relação a nós mesmos parece sempre salutar o cultivo da mais completa e insana cegueira. Em um mundo onde atualmente cada vez mais se fala em espiritualidade, onde sempre “o outro” parece estar em primeiro plano e não raro vemos nesse quadro uma desenfreada tentativa de controle e previsão sobre a conduta e o destino da vida alheia para o alívio momentâneo de angústias próprias, também parece haver, por outro lado, cada vez mais uma crescente falta de um olhar, um cuidado e um cultivo de si, e é exatamente por esse ângulo que Saramago flagra em seu texto o desespero do ser humano quando tem de se ver sozinho em um mundo que a todo o instante mostra seu potencial em nos deter e nos fazer retornar o olhar para o fundo de nós mesmos constatando inesgotavelmente a solidão de nossa singularidade, o recôndito último onde somente lá se finca o princípio fundamental da liberdade.   

                                                                  Philip G. Mayer                                                  


segunda-feira, 13 de abril de 2015

A Causalidade em Nietzsche (Final)

    Os físicos se encontram agora em uma posição unânime junto com os metafísicos quanto ao fato de que nós vivemos em um mundo da ilusão: felizes por não se ter mais a necessidade de ajustar as contas com um Deus quanto a isto, com um Deus de cuja "veracidade" se poderia chegar a ter pensamentos por demais estranhos. O elemento perspectivístico do mundo vai a uma dimensão tão profunda quanto acede hoje a nossa "compreensão" do mundo; e eu ousaria ainda estabelecê-lo lá onde o homem pode de maneira justa se abstrair da compreensão - tenho em vista lá onde os metafísicos estabelecem o reino do que aparentemente aponta para a consciência de si mesmo, para o que é compreensível para si mesmo, isto é, no pensamento. O fato de o número ser uma forma perspectivística, assim como o tempo e o espaço; o fato de nós não abrigarmos nem "uma alma", nem "duas almas" em nosso peito; o fato de os "indivíduos" não se deixarem mais deter como os "átomos" materiais, a não ser para a ação e o uso doméstico do pensar, e terem se volatilizado em um nada (ou em uma "fórmula"); o fato de nada vivo e morto poder ser adicionado conjuntamente, de dois conceitos serem falsos, de não haver três faculdades da alma, de "sujeito" e "objeto", "ativo" e "passivo", "causa" e "efeito" serem sempre apenas formas perspectivísticas, em suma, de a alma, o número, o tempo, o espaço, o fundamento, a finalidade - encontrarem-se uns com os outros e caírem uns com os outros. Supondo, porém, então, que não somos tão estultos assim, a ponto de avaliar a verdade, nesse caso o X, de maneira mais elevada do que a aparência; supondo que estamos decididos a viver - então não queremos permanecer insatisfeitos com esse caráter aparente das coisas e apenas insistir no fato de que ninguém permanece parado em relação a qualquer pensamento velado na apresentação dessa perspectividade: - algo com o que de fato quase todos os filósofos até aqui se depararam, pois eles tinham todos pensamentos velados e amavam suas "verdades" - naturalmente: nós precisamos levantar aqui o problema da veracidade: supondo que vivemos em consequência do erro, o que pode ser aí, afinal, a "vontade de verdade"? - Ela não precisaria ser uma "vontade de morte"? - Será que a aspiração dos filósofos e dos homens de ciência não seria talvez um sintoma de uma vida degradada e definhante, uma espécie de enfado da vida por parte da própria vida? Quaeritur [em latim no original: "a questão está lançada"]: e se poderia ficar aqui efetivamente pensativo.

                                                                 F. Nietzsche (fragmento póstumo)

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sábado, 11 de abril de 2015

A Causalidade em Nietzsche (18)

A Nova Concepção de Mundo

    1. O mundo persiste; ele não é nada que se torne, nada que passe. Ou antes: ele torna-se, passa, mas nunca começou a tornar-se e nunca cessou de passar - ele mantém-se em ambos... Vive de si mesmo: seus excrementos são o seu alimento.
    
    2. A hipótese de um mundo criado não deve nos preocupar nem por um momento. O conceito "criar" é hoje completamente indefinível, inexequível; é só uma palavra, ainda, uma palavra rudimentar do tempo da superstição; com uma palavra não se explica nada. A última tentativa de conceber um mundo que começa foi feita há pouco, de variadas maneiras, com ajuda de um procedimento lógico - sobretudo, como é de se adivinhar, com uma intenção teológica dissimulada.
    
    3. Quis-se, há pouco, de várias maneiras, encontrar uma contradição no conceito da infinitude temporal do mundo para trás: encontrou-se essa tal contradição, ao preço, claro, de confundir-se [a] cabeça com o rabo. A partir deste momento, nada pode me impedir de  dizer, contando para trás, "nunca chegarei a um fim": assim como posso contar, a partir do mesmo momento, para a frente, até o infinito. Somente se quisesse cometer o erro - prevenir-me-ei de fazê-lo - de igualar esse correto conceito de regressus in infinitum com um conceito, que não é absolutamente realizável, de um infinito progressus até agora, somente se estabelecesse a direção (para a frente ou para trás) como logicamente indiferente, iria poder agarrar a cabeça, este momento, como sendo o rabo: isso é coisa sua senhor Dühring! ...

    4. Nesse pensamento topei com pensadores anteriores: cada vez ele era determinado por outros pensamentos sub-reptícios (- na maioria das vezes teológicos, em favor do creator spiritus). Se o mundo, em geral, pudesse petrificar-se, secar, finar, tornar-se nada, ou se pudesse alcançar o estado de  equilíbrio, ou se tivesse qualquer fim que encerrasse em si a duração, a imutabilidade, o uma-vez-por-todas (resumindo, dito metafisicamente: se o devir pudesse desembocar no ser ou no nada), então esse  estado haveria de já ter sido alcançado. Mas ele não foi alcançado: donde se segue... Essa é a nossa única certeza, a que temos em mãos para servir de corretivo contra uma grande quantidade de hipóteses de mundo em si possíveis. Se, por exemplo, o mecanicismo não pode escapar da consequência de um estado final, que Thomson deduziu dele, então, com isso, o mecanicismo é refutado.

     5. Se o mundo pode ser pensado como grandeza determinada de força e como número determinado de centros de força - e toda outra representação permanece indeterminada e, consequentemente, inutilizável -, segue-se disso que ele há de perfazer um número de combinações computáveis no grande jogo de dados da sua existência. Em um tempo infinito, cada combinação possível haveria de ser alcançada em qualquer altura por uma vez; mais ainda: ela haveria de ser alcançada infinitas vezes. E então, entre cada "combinação" e seu próximo "retorno", todas as combinações possíveis haveriam de ter decorrido, e cada uma dessas combinações condiciona toda a sequência de combinações na mesma série, e assim seria, com isso, provado, um circuito de séries absolutamente idênticas: o mundo como circuito que já se repetiu com infinita frequência e que joga seu jogo in infinitum. - Essa concepção não é, sem mais, uma concepção mecanicista: pois se ela fosse tal, então não condicionaria um infinito retorno de casos idênticos, mas sim um estado final. Porque o mundo não alcançou esse estado, o mecanicismo há de valer, para nós, como hipótese incompleta e somente provisória.

    Sabeis vós também o que é para mim “o mundo”? Devo mostrá-lo em meu espelho? Este mundo: uma imensidão de força, sem começo, sem fim, uma firme, brônzea grandeza de força, que não se torna maior, não se torna menor, não se consome, só se transforma e, como um todo, é de imutável grandeza, um orçamento doméstico sem gastos e sem perdas, mas, do mesmo modo, sem crescimento, sem ganhos, encerrado pelo “nada” como por seu limite, nada que se desvaneça, nada desperdiçado, nada infinitamente extenso, mas sim, como força determinada, posto em um determinado espaço, não em um lugar que fosse algures “vazio”, antes como força em toda parte, como jogo de forças e ondas de força, ao mesmo tempo uno e vário, acumulando-se aqui e ao mesmo tempo diminuindo acolá, um mar em forças tempestuosas e afluentes em si mesmas, sempre se modificando, sempre refluindo, com anos imensos de retorno, com vazante e montante de suas configurações, expelindo das mais simples às mais complexas, do mais calmo, mais inteiriçado, mais frio ao mais incandescente, mais selvagem, para o que mais contradiz a si mesmo e depois, de novo, da plenitude voltando ao lar do mais simples, a partir do jogo das contradições de volta até o prazer da harmonia, afirmando a si mesmo ainda nessa igualdade de suas vias e anos, abençoando a si mesmo como aquilo que há de voltar eternamente, como um devir que não conhece nenhum tornar-se satisfeito, nenhum fastio, nenhum cansaço -: este meu mundo dionisíaco do criar eternamente a si mesmo, do destruir eternamente a si mesmo, este mundo misterioso da dupla volúpia, este meu “além de bem e mal”, sem fim, se não há um fim na felicidade do círculo, sem vontade, se não há boa vontade no anel que torna a si mesmo – vós quereis um nome para este mundo? Uma solução para todos os seus enigmas? Uma luz também para vós, ó mais esconsos, mais fortes, mais desassombrados, mais ínsitos à meia-noite? Este mundo é a vontade de podere nada além disso! E também vós mesmos sois essa vontade de poder – e nada além disso!

                                                                 F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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quinta-feira, 9 de abril de 2015

A Causalidade em Nietzsche (17)

    Se o mundo tivesse um fim, ele haveria de já ter sido alcançado. Se houvesse para ele um estado final não intencional, então este haveria de já ter sido, do mesmo modo, alcançado. Se ele fosse capaz, em geral, de um persistir, de um tornar-se petrificado, de um "ser", tivesse ele, em todo o seu devir, somente por um momento, essa capacidade do "ser", então ele teria chegado, mais uma vez, há muito tempo, ao fim do devir, também ao fim do pensar, ao fim do "espírito". O fato do "espírito" como um devir prova que o mundo não tem nenhum fim, nenhum estado final e é incapaz de ser. - O antigo hábito, porém, de em todo acontecimento pensar em fins e de, para o mundo, pensar em um Deus condutor e criador é tão poderoso que, ao pensador, custa esforço não pensar para si próprio a falta de finalidade do mundo, por sua vez, como uma intenção. Nessa inspiração - que, portanto, o mundo intencionalmente se esquiva de um fim e sabe até prevenir artificialmente o cair em um circuito - haverão de incorrer todos aqueles que gostariam de decretar para o mundo a capacidade da eterna novidade, isto é, gostariam de decretar tal coisa com relação a uma força final, determinada, imutavelmente da mesma grandeza , tal como é "o mundo" - a capacidade maravilhosa da infinita reconfiguração de suas formas e situações. O mundo, ainda que não tenha mais nenhum Deus, deve ser capaz da força criadora divina, da força de transformação infinita; ele deve proibir-se arbitrariamente de voltar para uma de suas antigas formas; não deve ter tão só a intenção, mas também os meios de guardar-se de toda repetição; deve controlar, portanto, em cada momento, cada um de seus movimentos para evitar fins, estados finais, repetições - e todas as demais consequências de um tal modo imperdoável e louco de pensar e querer. Esse é sempre ainda o velho modo religioso de pensar e querer, uma espécie de nostalgia de acreditar que em qualquer parte o mundo é igual ao velho Deus, querido, infinito, criador ilimitado - que em alguma parte, todavia, "o velho Deus ainda viva" - aquela nostalgia de Spinoza, que se exprime nas palavras "deus sive natura" [Em latim no original: "Deus ou natureza"] (ele sentiu mesmo "natura sive deus" -). Qual é, pois, o princípio ou fé com o qual se formula, o mais determinadamente, a virada decisiva, a preponderância alcançada agora pelo espírito científico sobre o espírito religioso inventor de deuses? Não é ele: o mundo, como força, não pode ser pensado como ilimitado? Pois ele não pode ser pensado assim - proibimo-nos o conceito de uma força infinita como sendo inconciliável com o conceito "força". Portanto - falta ao mundo também a capacidade para a eterna novidade.

    O princípio da conservação da energia exige o eterno retorno.

    Que uma situação de equilíbrio nunca tenha sido alcançada prova que ela não é possível. Mas, em um espaço indeterminado, haveria de ter sido alcançada. Do mesmo modo em um espaço esférico. A configuração do espaço há de ser a causa do movimento eterno, por fim, de toda "incompleteza".
    Prova de que "força", "repouso", "o permanecer igual a si mesmo" são coisas antagônicas. A medida da força (como grandeza) como fixa; sua essência [Wesen], porém fluida.
    Há que se despedir o "atemporal". Em um momento determinado da força é dada a absoluta condicionalidade de uma nova repartição de todas as suas forças: ela não pode permanecer plácida. A "mudança" pertence intimamente à essência, portanto, também a temporalidade: com o que, porém, mais uma vez, somente a necessidade de mudança é estabelecida conceitualmente.

                                                               F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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segunda-feira, 6 de abril de 2015

A Causalidade em Nietzsche (16)

    Os físicos acreditam em um "mundo verdadeiro" à sua maneira: uma firme sistematização de átomos igual para todos os seres [Wesen] e com movimentos necessários, - de modo que, para eles, o "mundo aparente" se reduz ao lado acessível a cada ser [Wesen], segundo sua espécie, do ser [Sein] universal e universalmente necessário (acessível e também ainda preparado - feito "subjetivo"). Mas, com isso, enganam-se: o átomo, que postulam, é deduzido a partir da lógica daquele perspectivismo da consciência, - também ele próprio é, portanto, uma ficção subjetiva. Essa imagem de mundo que eles projetam não é, em absoluto, essencialmente distinta da imagem de mundo subjetiva: ela só é construída com sentidos estendidos pelo pensar, mas absolutamente com nossos sentidos... Por fim, sem sabê-lo, omitiram algo da constelação: justamente o necessário perspectivismo, em virtude do qual cada centro de força - e não somente o homem - constrói a partir de si todo o mundo restante, isto é, mede, apalpa, forma pela sua força... Esqueceram de computar essa força que põe perspectivas no "ser verdadeiro" ["wahre Sein"]... Dito na linguagem da escola: o ser-sujeito. Eles acham que este foi "desenvolvido", que veio de acréscimo - Mas o químico ainda o usa: tal é o ser-específico que determina o agir e reagir de tal e qual maneira, sempre de acordo.
    O perspectivismo é só uma forma complexa de especificidade. - Meu modo de ver é que cada corpo específico anseia por tornar-se senhor de todo espaço, por estender sua força (- sua vontade de poder:) e repelir tudo que obsta à sua expansão. Mas ele se depara continuamente com o mesmo  ansiar de outros corpos e termina por arranjar-se ("unificar-se") com aqueles que lhe são aparentados o bastante: - assim eles conspiram, então, juntos, pelo poder. E o processo segue adiante...

    Também no reino do inorgânico, um átomo de força só considera a sua vizinhança: as forças que estão longe se compensam. Aqui está fincado o núcleo do perspectivo, e o porquê de um ser [Wesen] vivo ser completamente "egoístico".

    Posto que o mundo dispusesse de uma quantidade de força, então é evidente que todo deslocamento de poder para qualquer lugar condiciona todo o sistema - portanto, junto com a causalidade de um após o outro dar-se-ia uma dependência de um junto ao outro e de um com o outro.

    Se a essência mais íntima do ser é vontade de poder, se prazer é sempre crescimento do poder, desprazer sempre o sentimento de não resistir e de não poder se tornar senhor: não podemos estabelecer, então, prazer e desprazer como fatos cardinais? A vontade é possível sem essas duas oscilações do sim e do não? Mas quem sente prazer?... Mas quem quer poder?... Perguntas absurdas: se a essência mesma é vontade poderosa e, consequentemente, sentimento de prazer e desprazer. Apesar disso: carece-se dos opostos, das resistências, ou seja, relativamente, das unidades abrangentes... Localizadas ---
    Se A exerce um efeito sobre B, então A só conquista a sua localização na cisão em relação a B.

    A única possibilidade de conservar de pé um sentido para o conceito "Deus" seria considerar Deus não como uma força propulsora, mas sim como um estado-máximo, como uma época... Um ponto no desenvolvimento da vontade de poder, a partir da qual se explicaria tanto o desenvolvimento seguinte quanto o desenvolvimento anterior até ele...
    - Considerada de modo mecanicista, a energia do conjunto do devir permanece constante; considerada economicamente, ela sobe até uma certa altura e desce a partir dela, de novo, num eterno circuito. Essa "vontade de poder" exprime-se na interpretação, na espécie do consumo de força - a transformação da energia em vida e a vida na mais alta potência aparecem, de acordo com isso, como meta. Em diferentes estágios do desenvolvimento, a mesma quantidade de energia significa algo diferente:
    - aquilo que na vida constitui o crescimento é sempre a economia, que sempre economiza e torna a calcular, a qual alcança sempre mais com sempre menos força... Como ideal, o princípio da menor despesa possível...
    - que o mundo não almeja um estado duradouro, isso é a única coisa que está provada. Consequentemente, de pensar-se o estado mais elevado do mundo de modo que ele não seja nenhum estado de equilíbrio...
    - a necessidade absoluta do mesmo acontecer em um curso do mundo, como em todos os outros na eternidade, não é um determinismo a respeito do acontecer, mas apenas a expressão do fato de que o impossível não é possível... que uma determinada força não pode ser nada de outro, a não ser esta determinada força; que ela não se libera de outro modo em uma força-resistência senão de acordo com sua força - acontecer e acontecer-necessariamente são uma tautologia.

                                                                  F. Nietzsche (fragmentos póstumos) 

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quinta-feira, 2 de abril de 2015

A Causalidade em Nietzsche (15)

Quanta de poder - Crítica do mecanicismo 

    Afastemos aqui os dois conceitos populares, "necessidade" e "lei": o primeiro estabelece no mundo uma falsa coerção; o segundo uma falsa liberdade. "As coisas" não se comportam regularmente, não se comportam segundo uma regra: não há coisa alguma (- isso é uma ficção), elas também não se comportam de maneira alguma sob uma coerção da necessidade. Não se obedece aqui: pois o fato de algo ser tal como é, tão forte, tão fraco, não é a consequência de uma obediência ou de uma regra ou de uma coerção...
    O grau de resistência e o grau de superpoder - é disso que se trata em todo acontecimento: se nós, para o nosso uso doméstico do cálculo, sabemos expressar isso em fórmulas "legais", tanto melhor para nós! Mas não estabelecemos nenhuma moralidade no mundo com o fato de fingirmos que elas são obedientes -
    Não há nenhuma lei: cada poder retira a cada instante a sua derradeira consequência. A calculabilidade baseia-se precisamente no fato de que não há nenhum mezzo termine.
    Um quantum de poder é designado pelo efeito que exerce e ao qual ele resiste. Falta a adiaforia: que seria em si pensável. É essencial uma vontade de violentação, assim como se proteger contra as violentações. Não autoconservação; cada átomo atua em direção ao ser como um todo - o ser todo é alijado pelo pensamento, quando se elimina essa irradiação das vontades de poder. Por isso, eu o denomino um quantum "vontade de poder": com isso, expressa-se o caráter que não pode ser eliminado da ordem mecânica, sem eliminar a si mesmo.
    Uma tradução desse mundo de efeitos em um mundo visível - um mundo para os olhos - é o conceito de "movimento". Aqui está sempre subentendido que algo é movido - sempre se pensa nesse contexto, seja na ficção de um conglomerado de átomos, seja mesmo em sua abstração, no átomo dinâmico, em algo que atua. Isto é, não escapamos ainda do hábito para o qual nos desencaminham os sentidos e a linguagem. Isoladamente, sujeito, objeto, um agente, em relação ao ato, o fazer e aquilo que ele faz: não esqueçamos que isso designa uma mera semiótica e nada real. A mecânica como uma doutrina do movimento é já uma tradução na linguagem sensorial do homem.
    
    Nós necessitamos de unidades para podermos calcular: por isso, não se deve supor que haja tais unidades. Nós retiramos os conceito de unidade de nosso conceito de "eu" - nosso mais antigo artigo de fé. Se nós não nos considerássemos unidades, nós nunca teríamos cunhado o conceito "coisa". Agora, relativamente mais tarde, estamos amplamente convencidos de que nossa concepção do conceito de eu não é em nada responsável por uma unidade real. Para conservarmos o mecanismo do mundo teoricamente funcionando, portanto, temos sempre de inserir a cláusula que determina até que ponto conduzimos o mundo com duas ficções: com o conceito do movimento (retirado de nossa linguagem sensorial) e com o conceito do átomo = unidade (proveniente de nossa "experiência" psíquica): ele tem por pressuposto um preconceito sensorial e um preconceito psicológico.
    O mundo mecanicista é imaginado tal como o olho e o tato apenas imaginam um mundo (como "movido"). 
    de tal modo que ele pode ser calculado - que unidades surgem de maneira fictícia 
   de tal modo que unidades causais surgem de maneira fictícia, "coisas" (átomos), cujo efeito permanece constante (- transposição do conceito falso de sujeito para o conceito de átomo).
    Conceito de número
    Conceito de coisa (conceito de sujeito)
    Conceito de atividade (cisão entre ser causa e efeitos)
    Movimento (olho e tato)
    : que todo efeito é movimento
    : que, onde há movimento, algo é movido 
    Portanto, fenomênico é: a imiscuição do conceito de número, do conceito de sujeito, do conceito de movimento: temos nossos olhos, nossa psicologia sempre ainda aí.
    Se eliminarmos esses ingredientes: então não resta nenhuma coisa, mas quanta dinâmicos, em uma relação de tensão com todos os outros quanta dinâmicos: cuja essência consiste em sua relação com todos os outros quanta, em sua "atuação" sobre eles - a vontade de poder, não um ser, não um devir, mas um páthos, é o fato mais elementar, a partir do qual apenas se obtém um devir, um atuar... 
    a mecânica formula manifestações sucessivas, e, além disso, de maneira semiótica, com os meios de expressão sensoriais e psicológicos (que todo efeito é movimento; que onde existe movimento, algo é movido): ela não se refere à força causal... 

                                                                F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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segunda-feira, 30 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (14)

    Ilusão de que algo seja conhecido onde temos uma fórmula matemática para o acontecer: este é designado, descrito: nada mais!

    Se levo um acontecer regular a uma fórmula, então facilitei, abreviei etc. para mim a designação do fenômeno [Phänomens] em seu todo. Mas não constatei nenhuma "lei", antes propus a questão: de onde provém o fato de que aqui algo se repita? É uma conjetura a de que à formula corresponda um complexo de forças, um desencadear-se-de-forças primeiramente desconhecidas: é mitologia pensar que, aqui, forças obedecem a uma lei, de modo que, como consequência de sua obediência, tenhamos a cada vez o mesmo fenômeno [gleiche Phänomen].

    Acautelo-me de falar de "leis" químicas: isso tem um sabor moral. Trata-se antes de uma verificação absoluta de proporções de poder: o mais fortalecido torna-se senhor do mais fraco, à medida que este não pode impor justamente o seu grau de autonomia, - aqui não há nenhum compadecer-se, nenhuma preservação, ainda menos um respeito a "leis"!

    A sequência imutável de certas manifestações não prova nenhuma "lei", mas sim uma proporção de poder entre duas ou mais forças. Dizer: "mas justamente essa proporção permanece igual a si mesma!" não quer dizer nada, a não se: "uma e mesma força não pode ser também uma outra força". - Não se trata de um seguir-se-ao-outro - mas sim de um um-no-outro, um processo no qual os momentos isolados que se seguem não se condicionam como causas e efeitos...
    A separação do "fazer" em relação ao "que faz", do acontecer em relação a algo que faz acontecer, do processo em relação a um algo que não é processo, mas é substância durável, coisa, corpo, alma etc. - a tentativa de conceber o acontecer como uma espécie de transposição e mudança de posição do "que é" ["Seiendem"], do que permanece: essa velha mitologia firmou a crença em "causa e efeito", depois de ela ter encontrado uma forma fixa nas funções linguístico-gramaticais. - 

    A "regularidade" da sucessão é somente uma expressão imagética como se aqui fosse seguida uma regra: não há nenhum fato. Do mesmo modo a "legalidade". Encontramos uma fórmula para exprimir uma espécie de consequência que sempre retorna: com isso não descobrimos nenhuma "lei", menos ainda uma força que é a causa do retorno das consequências. Que algo aconteça sempre tal e qual  é aqui interpretado como se um ser [Wesen], em consequência de uma obediência a uma lei ou a um legislador, agisse sempre de tal e qual forma: enquanto, por outro lado, esse algo, abstraído da "lei", tivesse liberdade para agir de outra maneira. Mas justamente aquele tal-e-não-de-outra-maneira poderia provir do ser [Wesen] mesmo, que não se portaria assim com respeito somente a uma lei, mas como constituído de tal e qual modo. Isso quer dizer somente: algo não pode ser também algo de outro, não pode fazer ora isso, ora aquilo, nem é livre, nem não livre, mas sim tal e qual. O erro está na intromissão inventada de um sujeito.

    Dois estados se sucedem, um sendo uma causa e o outro um efeito -: é falso. O primeiro estado não tem nada a efetuar, nada efetuou o segundo.
    Trata-se de uma luta de dois elementos desiguais em poder: alcança-se um novo arranjo das forças, sempre segundo a medida de poder de cada um. O segundo estado é algo fundamentalmente diverso do primeiro (não seu "efeito"): o essencial é que os fatores que se encontram em luta saem com outras qualidades de poder.

                                                                F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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sexta-feira, 27 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (13)

    Não há nada de imutável na química, isso é somente aparência, um mero preconceito de escola. Nós sempre rebocamos o imutável a partir da metafísica, meus senhores físicos. É completamente ingênuo, lendo-se da superfície, afirmar que o diamante, o grafite e o carvão são idênticos. Por quê? Apenas porque nenhuma perda de substância pode ser constatada pela balança! Ora bem, com isso eles têm algo em comum, mas o trabalho da molécula na transformação, que não podemos ver nem pesar, faz justamente de uma só matéria algo outro - com suas propriedades específicas.

    Contra o átomo físico. Para conceber o mundo havemos de poder calculá-lo; para poder calculá-lo, havemos de ter causas constantes; porque não encontramos na realidade [Wirklichkeit] tais causas constantes, nós as inventamos - os átomos. Essa é a origem da atomística.
    A calculabilidade do mundo, a possibilidade de expressar todo acontecer em fórmulas - é isso realmente um "conceber"? O que, porém, seria concebido em uma música, se tudo o que nela é calculável e pode ser abreviado em fórmulas fosse calculado? - Do mesmo modo, as "causas constantes", as coisas, substâncias, algo "incondicionado", portanto; tudo inventado - o que se conseguiu?

    O conceito mecanicista do movimento é já uma tradução do processo original na língua cifrada do olho e do tato.
    O conceito "átomo", a diferenciação entre uma "sede da força propulsora e ela própria", é uma língua cifrada tomada de nosso mundo lógico-psíquico.
    Não está no poder do nosso arbítrio mudar nosso meio de expressão: é possível conceber em que medida isso é mera semiótica. A exigência de um modo de expressão adequado é insensata: jaz na essência de uma língua, de um meio de expressão, expressar uma mera relação... O conceito "verdade" é um contrassenso... todo o império do "verdadeiro" e "falso" reporta-se apenas a relações entre seres, não ao "em-si"... Insensatez: não há nenhum "ser [Wesen] em si", as relações constituem primeiro os seres, tampouco pode haver um "conhecimento em si"...

    "A sensação de força não pode provir do movimento: sensação, em geral, não pode provir de movimento.
    Também a favor disso só fala uma experiência aparente: em uma substância (cérebro) produz-se sensação por meio de movimento transmitido (estímulo). Mas, produz-se? Estaria, pois, provado que a sensação ainda não existe lá, absolutamente? De modo que seu surgimento haveria de ser concebido como ato de criação do movimento que irrompe? O estado sem sensação dessa substância é só uma hipótese! Nenhuma experiência! - Sensação, portanto, como propriedade da substância: há substâncias sensíveis."
    "Experimentamos de certas substâncias que elas não têm sensação? Não, somente não experimentamos que elas as tenham. É impossível derivar sensação de uma substância não senciente." - Oh, quanta precipitação!

    "Atrair" e "repelir", em sentido puramente mecânico, são uma perfeita ficção: uma palavra. Não podemos imaginar um atrair sem uma intenção. - A vontade de apoderar-se de uma coisa, ou de defender-se de seu poder e de repeli-la - isso "nós compreendemos": essa seria uma interpretação que poderíamos usar.
    Em resumo: o constrangimento psicológico a uma crença na causalidade jaz na impossibilidade de representar um acontecer sem intenções: com o que, naturalmente, nada se diz a respeito de verdade e inverdade (a respeito de uma autorização para uma tal crença). A crença em causae tomba com a crença em "fins" (contra Spinoza e seu causalismo).

                                                                F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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terça-feira, 24 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (12)

    A explicação mecanicista do mundo é um ideal: com o mínimo possível, deve-se explicar o máximo possível, ou seja, transpô-lo em fórmulas. Ainda é necessário: negar o espaço vazio; pensar o espaço como algo determinado e limitado; do mesmo modo, pensar o mundo como algo que se repete eternamente.

    O número é nosso grande meio para tornarmos o mundo manejável. Compreendemos na medida em que podemos contar, ou seja, na medida em que se pode perceber uma constância.

    Restaram os conceitos mais úteis: por mais erroneamente que possam ter surgido.

    Das interpretações de mundo que foram tentadas até agora, a mecanicista parece estar em primeiro plano, vitoriosa. Visivelmente, ela tem a boa consciência do lado dela; e nenhuma ciência acredita de verdade em progresso e sucesso, a não ser que eles sejam conquistados com a ajuda de procedimentos mecanicistas. Todos conhecem esses procedimentos: deixam-se fora de jogo a "razão" e os "fins", não importando aonde isso possa levar, mostra-se que, na duração de tempo conveniente, tudo pode decorrer de tudo, e não se esconde um sorriso malicioso quando de novo a "aparente intencionalidade no destino" de uma planta ou de uma gema de ovo é reduzida a pressão e choque: em suma, venera-se de todo o coração - se se permite uma expressão jocosa em um assunto tão sério - o princípio da maior tolice possível. Entrementes, justamente nos espíritos mais seletos que estão nesse movimento, dá-se um pressentimento, uma angústia de conhecer, como se a teoria tivesse um buraco que cedo ou tarde pudesse tornar-se o seu último buraco: refiro-me àquele buraco do qual se assobia quando se está na mais extrema necessidade. Não se pode "explicar" pressão e choque, eles mesmos, não se consegue ficar livre da actio in distans: - perdeu-se a crença no próprio poder explicar e reconhece-se, com cara azeda, que em breve o descrever, e não o explicar, terá poder sobre os físicos, justamente com a interpretação dinâmica de mundo, com sua negação do "espaço vazio", dos átomos de massas ínfimas: no que terá para a dynamis (força) ainda uma qualidade interna -

    O conceito vitorioso, "força", com o qual nossos físicos criaram Deus e o mundo, necessita ainda ser completado: há de ser-lhe atribuído um mundo interno que designo como "vontade de poder", isto é, como insaciável ansiar por mostrar poder; ou emprego, exercício de poder, pulsão criadora etc. Os físicos não se libertarão, a partir de seus princípios, do "efeito à distância": tampouco de uma força de repulsão (ou de atração). Isso não ajuda em nada: há de conceber-se todos os movimentos, todas as "manifestações", todas as leis somente como sintomas de um acontecimento interno, e por fim servir-se da analogia do homem. No animal, é possível derivar da vontade de poder todas as suas pulsões; da mesma maneira, todas as funções da vida orgânica podem ser derivadas dessa única fonte.

    Alguma vez foi constatada uma força? Não, mas efeitos, traduzidos em uma linguagem completamente estranha. A sucessão regular, porém, acostumou-nos tão mal que nós não nos admiramos [wundern] com o que nela há de espantoso [Wunderlich].

    Uma força que não podemos representar é uma palavra vazia e não pode ter nenhum direito de cidadania na ciência: como as chamadas forças de atração e repulsão, puramente mecânicas, que querem fazer o mundo representável para nós, nada mais!

    Pressão e choque são algo indizivelmente tardio, derivado, não original. Isso já pressupõe algo que se entretém e pode pressionar e entrar em choque! Mas a partir de onde se entretém?

                                                                 F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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sexta-feira, 20 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (11)

    A "coisa em si" é um contrassenso. Se deixo de pensar em todas as relações, em todas as "propriedades", em todas as "atividades" de uma coisa, então não sobra a coisa: pois coisidade é primeiramente simulada de acréscimo por nós, por necessidades lógicas, portanto, para fins de designação, de entendimento (para ligação daquela multiplicidade de relações, propriedades, atividades).

    "Coisas que têm uma constituição em si" - eis aí uma representação dogmática, com a qual se deve romper absolutamente.

    Que as coisas tenham uma contituição em si, completamente abstraída da interpretação e da subjetividade, é uma hipótese inteiramente ociosa: seria pressupor que o interpretar e o ser sujeito não sejam essenciais, que uma coisa desligada de todas as relações ainda seja coisa.
    Pelo contrário: o aparente caráter objetivo das coisas: ele não poderia decorrer simplesmente de uma diferença de grau no interior do subjetivo? - de modo, por exemplo, que o que muda lentamente se apresentasse para nós como durando "objetivamente", como sendo, como "em si"?
    - de modo que o objetivo fosse apenas uma falsa espécie de conceito e uma falsa oposição no interior do subjetivo?

    Toda unidade é unidade como organização e combinação: em nada diferente de como uma comunidade humana é uma unidade: o contrário, por exemplo, da anarquia atomística; por conseguinte, uma configuração de domínio, que significa um, mas não é um.
    se toda unidade só fosse unidade como organização? Mas a "coisa", na qual acreditamos, é tão somente inventada de acréscimo como fermento para diferentes predicados. Quando a coisa "atua", isso significa que concebemos todas as demais propriedades, que de resto ainda existem aqui, e momentaneamente estão latentes, como causa de que agora uma única propriedade sobressaia: isto é, tomamos a soma de suas propriedades - x - como causa da propriedade x: o que é inteiramente tolo e aloprado!

                                                               F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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segunda-feira, 16 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (10)

    - A maior fabulação é aquela do conhecimento. Gostar-se-ia de saber como as coisas em si são constituídas: mas veja, não há nenhumas coisas em si! E mesmo que houvesse um em si, um incondicionado, então, justamente por isso, ele não poderia ser conhecido! Algo incondicionado não pode ser conhecido: senão justamente não seria incondicionado! Conhecer, todavia, é sempre "colocar-se em uma condição para com alguma coisa" - -; um tal conhecedor quer que aquilo que queira conhecer não lhe diga respeito em nada; e que o mesmo algo não diga respeito a ninguém em geral: no que, primeiramente, se dá uma contradição, a saber, no querer-conhecer e no exigir que nada deva dizer-lhe respeito (então, para que conhecer!), e, em segundo lugar, porque algo, que não diz respeito a ninguém em nada, absolutamente não é, e, portanto, também não pode ser conhecido. - Conhecer quer dizer "colocar-se em uma condição em relação a algo": sentir-se condicionado por algo e entre nós - - é, portanto, sob todas as circunstâncias, um estabelecer, designar, tornar-se consciente de condições (não um sondar as essências [Wesen], coisas, "em-si"). 

    Uma "coisa em si" é tão absurda quanto um "sentido em si", um "significado em si". Não há nenhum "fato em si", mas antes um sentido há de sempre ser primeiramente intrometido para que um fato possa haver.
    O "o que é isso?" é um estabelecimento de sentido visto a partir de algo outro. A "essência" ["Essenz"], a "essencialidade" ["Wesenheit"], é algo de perspectivo e já pressupõe uma multiplicidade. No fundo, jaz sempre "o que é isso para mim?" (para nós, para tudo que vive etc.).
    Uma coisa seria designada se e somente se todos os seres [Wesen] nela tivessem questionado o seu "o que é isto?", questionado e respondido. Posto que faltasse um único ser [Wesen], com suas próprias relações e perspectivas em relação a todas as coisas, a coisa permaneceria sempre ainda não "definida".
    Em resumo: a essência [Wesen] de uma coisa é também somente uma opinião sobre a "coisa". Ou antes: o "isto vale" é o "isto é" propriamente dito, o único "isto é"
    Não cabe perguntar: "quem interpreta?", mas sim se o interpretar mesmo tem existência (mas não como um "ser": como um processo, um devir) como uma forma da vontade de poder, como um afeto.
    O surgimento das "coisas" é, pura e simplesmente, a obra daquele que representa, que pensa, que quer, que inventa. O conceito "coisa", ele mesmo, tanto quanto todas as propriedades. - Mesmo "o sujeito" é algo criado dessa maneira, uma "coisa", como todas as outras: uma simplificação para designar como tal a força que estabelece, inventa, pensa, em contraposição a todo estabelecer, inventar e mesmo pensar, tomados isoladamente. Portanto, designar a capacidade em contraposição a todo indivíduo: no fundo, o fazer reunido com referência a todo fazer que ainda se pode esperar (o fazer e a probabilidade de um fazer semelhante).

    As propriedades de uma coisa são efeitos sobre outras "coisas": se, pelo pensamento, se abstraem as outras "coisas", então uma coisa não tem propriedades
    isto é, não há nenhuma coisa sem outras coisas
    isto é, não há nenhuma "coisa em si".

                                                                 F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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