segunda-feira, 30 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (14)

    Ilusão de que algo seja conhecido onde temos uma fórmula matemática para o acontecer: este é designado, descrito: nada mais!

    Se levo um acontecer regular a uma fórmula, então facilitei, abreviei etc. para mim a designação do fenômeno [Phänomens] em seu todo. Mas não constatei nenhuma "lei", antes propus a questão: de onde provém o fato de que aqui algo se repita? É uma conjetura a de que à formula corresponda um complexo de forças, um desencadear-se-de-forças primeiramente desconhecidas: é mitologia pensar que, aqui, forças obedecem a uma lei, de modo que, como consequência de sua obediência, tenhamos a cada vez o mesmo fenômeno [gleiche Phänomen].

    Acautelo-me de falar de "leis" químicas: isso tem um sabor moral. Trata-se antes de uma verificação absoluta de proporções de poder: o mais fortalecido torna-se senhor do mais fraco, à medida que este não pode impor justamente o seu grau de autonomia, - aqui não há nenhum compadecer-se, nenhuma preservação, ainda menos um respeito a "leis"!

    A sequência imutável de certas manifestações não prova nenhuma "lei", mas sim uma proporção de poder entre duas ou mais forças. Dizer: "mas justamente essa proporção permanece igual a si mesma!" não quer dizer nada, a não se: "uma e mesma força não pode ser também uma outra força". - Não se trata de um seguir-se-ao-outro - mas sim de um um-no-outro, um processo no qual os momentos isolados que se seguem não se condicionam como causas e efeitos...
    A separação do "fazer" em relação ao "que faz", do acontecer em relação a algo que faz acontecer, do processo em relação a um algo que não é processo, mas é substância durável, coisa, corpo, alma etc. - a tentativa de conceber o acontecer como uma espécie de transposição e mudança de posição do "que é" ["Seiendem"], do que permanece: essa velha mitologia firmou a crença em "causa e efeito", depois de ela ter encontrado uma forma fixa nas funções linguístico-gramaticais. - 

    A "regularidade" da sucessão é somente uma expressão imagética como se aqui fosse seguida uma regra: não há nenhum fato. Do mesmo modo a "legalidade". Encontramos uma fórmula para exprimir uma espécie de consequência que sempre retorna: com isso não descobrimos nenhuma "lei", menos ainda uma força que é a causa do retorno das consequências. Que algo aconteça sempre tal e qual  é aqui interpretado como se um ser [Wesen], em consequência de uma obediência a uma lei ou a um legislador, agisse sempre de tal e qual forma: enquanto, por outro lado, esse algo, abstraído da "lei", tivesse liberdade para agir de outra maneira. Mas justamente aquele tal-e-não-de-outra-maneira poderia provir do ser [Wesen] mesmo, que não se portaria assim com respeito somente a uma lei, mas como constituído de tal e qual modo. Isso quer dizer somente: algo não pode ser também algo de outro, não pode fazer ora isso, ora aquilo, nem é livre, nem não livre, mas sim tal e qual. O erro está na intromissão inventada de um sujeito.

    Dois estados se sucedem, um sendo uma causa e o outro um efeito -: é falso. O primeiro estado não tem nada a efetuar, nada efetuou o segundo.
    Trata-se de uma luta de dois elementos desiguais em poder: alcança-se um novo arranjo das forças, sempre segundo a medida de poder de cada um. O segundo estado é algo fundamentalmente diverso do primeiro (não seu "efeito"): o essencial é que os fatores que se encontram em luta saem com outras qualidades de poder.

                                                                F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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sexta-feira, 27 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (13)

    Não há nada de imutável na química, isso é somente aparência, um mero preconceito de escola. Nós sempre rebocamos o imutável a partir da metafísica, meus senhores físicos. É completamente ingênuo, lendo-se da superfície, afirmar que o diamante, o grafite e o carvão são idênticos. Por quê? Apenas porque nenhuma perda de substância pode ser constatada pela balança! Ora bem, com isso eles têm algo em comum, mas o trabalho da molécula na transformação, que não podemos ver nem pesar, faz justamente de uma só matéria algo outro - com suas propriedades específicas.

    Contra o átomo físico. Para conceber o mundo havemos de poder calculá-lo; para poder calculá-lo, havemos de ter causas constantes; porque não encontramos na realidade [Wirklichkeit] tais causas constantes, nós as inventamos - os átomos. Essa é a origem da atomística.
    A calculabilidade do mundo, a possibilidade de expressar todo acontecer em fórmulas - é isso realmente um "conceber"? O que, porém, seria concebido em uma música, se tudo o que nela é calculável e pode ser abreviado em fórmulas fosse calculado? - Do mesmo modo, as "causas constantes", as coisas, substâncias, algo "incondicionado", portanto; tudo inventado - o que se conseguiu?

    O conceito mecanicista do movimento é já uma tradução do processo original na língua cifrada do olho e do tato.
    O conceito "átomo", a diferenciação entre uma "sede da força propulsora e ela própria", é uma língua cifrada tomada de nosso mundo lógico-psíquico.
    Não está no poder do nosso arbítrio mudar nosso meio de expressão: é possível conceber em que medida isso é mera semiótica. A exigência de um modo de expressão adequado é insensata: jaz na essência de uma língua, de um meio de expressão, expressar uma mera relação... O conceito "verdade" é um contrassenso... todo o império do "verdadeiro" e "falso" reporta-se apenas a relações entre seres, não ao "em-si"... Insensatez: não há nenhum "ser [Wesen] em si", as relações constituem primeiro os seres, tampouco pode haver um "conhecimento em si"...

    "A sensação de força não pode provir do movimento: sensação, em geral, não pode provir de movimento.
    Também a favor disso só fala uma experiência aparente: em uma substância (cérebro) produz-se sensação por meio de movimento transmitido (estímulo). Mas, produz-se? Estaria, pois, provado que a sensação ainda não existe lá, absolutamente? De modo que seu surgimento haveria de ser concebido como ato de criação do movimento que irrompe? O estado sem sensação dessa substância é só uma hipótese! Nenhuma experiência! - Sensação, portanto, como propriedade da substância: há substâncias sensíveis."
    "Experimentamos de certas substâncias que elas não têm sensação? Não, somente não experimentamos que elas as tenham. É impossível derivar sensação de uma substância não senciente." - Oh, quanta precipitação!

    "Atrair" e "repelir", em sentido puramente mecânico, são uma perfeita ficção: uma palavra. Não podemos imaginar um atrair sem uma intenção. - A vontade de apoderar-se de uma coisa, ou de defender-se de seu poder e de repeli-la - isso "nós compreendemos": essa seria uma interpretação que poderíamos usar.
    Em resumo: o constrangimento psicológico a uma crença na causalidade jaz na impossibilidade de representar um acontecer sem intenções: com o que, naturalmente, nada se diz a respeito de verdade e inverdade (a respeito de uma autorização para uma tal crença). A crença em causae tomba com a crença em "fins" (contra Spinoza e seu causalismo).

                                                                F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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terça-feira, 24 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (12)

    A explicação mecanicista do mundo é um ideal: com o mínimo possível, deve-se explicar o máximo possível, ou seja, transpô-lo em fórmulas. Ainda é necessário: negar o espaço vazio; pensar o espaço como algo determinado e limitado; do mesmo modo, pensar o mundo como algo que se repete eternamente.

    O número é nosso grande meio para tornarmos o mundo manejável. Compreendemos na medida em que podemos contar, ou seja, na medida em que se pode perceber uma constância.

    Restaram os conceitos mais úteis: por mais erroneamente que possam ter surgido.

    Das interpretações de mundo que foram tentadas até agora, a mecanicista parece estar em primeiro plano, vitoriosa. Visivelmente, ela tem a boa consciência do lado dela; e nenhuma ciência acredita de verdade em progresso e sucesso, a não ser que eles sejam conquistados com a ajuda de procedimentos mecanicistas. Todos conhecem esses procedimentos: deixam-se fora de jogo a "razão" e os "fins", não importando aonde isso possa levar, mostra-se que, na duração de tempo conveniente, tudo pode decorrer de tudo, e não se esconde um sorriso malicioso quando de novo a "aparente intencionalidade no destino" de uma planta ou de uma gema de ovo é reduzida a pressão e choque: em suma, venera-se de todo o coração - se se permite uma expressão jocosa em um assunto tão sério - o princípio da maior tolice possível. Entrementes, justamente nos espíritos mais seletos que estão nesse movimento, dá-se um pressentimento, uma angústia de conhecer, como se a teoria tivesse um buraco que cedo ou tarde pudesse tornar-se o seu último buraco: refiro-me àquele buraco do qual se assobia quando se está na mais extrema necessidade. Não se pode "explicar" pressão e choque, eles mesmos, não se consegue ficar livre da actio in distans: - perdeu-se a crença no próprio poder explicar e reconhece-se, com cara azeda, que em breve o descrever, e não o explicar, terá poder sobre os físicos, justamente com a interpretação dinâmica de mundo, com sua negação do "espaço vazio", dos átomos de massas ínfimas: no que terá para a dynamis (força) ainda uma qualidade interna -

    O conceito vitorioso, "força", com o qual nossos físicos criaram Deus e o mundo, necessita ainda ser completado: há de ser-lhe atribuído um mundo interno que designo como "vontade de poder", isto é, como insaciável ansiar por mostrar poder; ou emprego, exercício de poder, pulsão criadora etc. Os físicos não se libertarão, a partir de seus princípios, do "efeito à distância": tampouco de uma força de repulsão (ou de atração). Isso não ajuda em nada: há de conceber-se todos os movimentos, todas as "manifestações", todas as leis somente como sintomas de um acontecimento interno, e por fim servir-se da analogia do homem. No animal, é possível derivar da vontade de poder todas as suas pulsões; da mesma maneira, todas as funções da vida orgânica podem ser derivadas dessa única fonte.

    Alguma vez foi constatada uma força? Não, mas efeitos, traduzidos em uma linguagem completamente estranha. A sucessão regular, porém, acostumou-nos tão mal que nós não nos admiramos [wundern] com o que nela há de espantoso [Wunderlich].

    Uma força que não podemos representar é uma palavra vazia e não pode ter nenhum direito de cidadania na ciência: como as chamadas forças de atração e repulsão, puramente mecânicas, que querem fazer o mundo representável para nós, nada mais!

    Pressão e choque são algo indizivelmente tardio, derivado, não original. Isso já pressupõe algo que se entretém e pode pressionar e entrar em choque! Mas a partir de onde se entretém?

                                                                 F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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sexta-feira, 20 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (11)

    A "coisa em si" é um contrassenso. Se deixo de pensar em todas as relações, em todas as "propriedades", em todas as "atividades" de uma coisa, então não sobra a coisa: pois coisidade é primeiramente simulada de acréscimo por nós, por necessidades lógicas, portanto, para fins de designação, de entendimento (para ligação daquela multiplicidade de relações, propriedades, atividades).

    "Coisas que têm uma constituição em si" - eis aí uma representação dogmática, com a qual se deve romper absolutamente.

    Que as coisas tenham uma contituição em si, completamente abstraída da interpretação e da subjetividade, é uma hipótese inteiramente ociosa: seria pressupor que o interpretar e o ser sujeito não sejam essenciais, que uma coisa desligada de todas as relações ainda seja coisa.
    Pelo contrário: o aparente caráter objetivo das coisas: ele não poderia decorrer simplesmente de uma diferença de grau no interior do subjetivo? - de modo, por exemplo, que o que muda lentamente se apresentasse para nós como durando "objetivamente", como sendo, como "em si"?
    - de modo que o objetivo fosse apenas uma falsa espécie de conceito e uma falsa oposição no interior do subjetivo?

    Toda unidade é unidade como organização e combinação: em nada diferente de como uma comunidade humana é uma unidade: o contrário, por exemplo, da anarquia atomística; por conseguinte, uma configuração de domínio, que significa um, mas não é um.
    se toda unidade só fosse unidade como organização? Mas a "coisa", na qual acreditamos, é tão somente inventada de acréscimo como fermento para diferentes predicados. Quando a coisa "atua", isso significa que concebemos todas as demais propriedades, que de resto ainda existem aqui, e momentaneamente estão latentes, como causa de que agora uma única propriedade sobressaia: isto é, tomamos a soma de suas propriedades - x - como causa da propriedade x: o que é inteiramente tolo e aloprado!

                                                               F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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segunda-feira, 16 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (10)

    - A maior fabulação é aquela do conhecimento. Gostar-se-ia de saber como as coisas em si são constituídas: mas veja, não há nenhumas coisas em si! E mesmo que houvesse um em si, um incondicionado, então, justamente por isso, ele não poderia ser conhecido! Algo incondicionado não pode ser conhecido: senão justamente não seria incondicionado! Conhecer, todavia, é sempre "colocar-se em uma condição para com alguma coisa" - -; um tal conhecedor quer que aquilo que queira conhecer não lhe diga respeito em nada; e que o mesmo algo não diga respeito a ninguém em geral: no que, primeiramente, se dá uma contradição, a saber, no querer-conhecer e no exigir que nada deva dizer-lhe respeito (então, para que conhecer!), e, em segundo lugar, porque algo, que não diz respeito a ninguém em nada, absolutamente não é, e, portanto, também não pode ser conhecido. - Conhecer quer dizer "colocar-se em uma condição em relação a algo": sentir-se condicionado por algo e entre nós - - é, portanto, sob todas as circunstâncias, um estabelecer, designar, tornar-se consciente de condições (não um sondar as essências [Wesen], coisas, "em-si"). 

    Uma "coisa em si" é tão absurda quanto um "sentido em si", um "significado em si". Não há nenhum "fato em si", mas antes um sentido há de sempre ser primeiramente intrometido para que um fato possa haver.
    O "o que é isso?" é um estabelecimento de sentido visto a partir de algo outro. A "essência" ["Essenz"], a "essencialidade" ["Wesenheit"], é algo de perspectivo e já pressupõe uma multiplicidade. No fundo, jaz sempre "o que é isso para mim?" (para nós, para tudo que vive etc.).
    Uma coisa seria designada se e somente se todos os seres [Wesen] nela tivessem questionado o seu "o que é isto?", questionado e respondido. Posto que faltasse um único ser [Wesen], com suas próprias relações e perspectivas em relação a todas as coisas, a coisa permaneceria sempre ainda não "definida".
    Em resumo: a essência [Wesen] de uma coisa é também somente uma opinião sobre a "coisa". Ou antes: o "isto vale" é o "isto é" propriamente dito, o único "isto é"
    Não cabe perguntar: "quem interpreta?", mas sim se o interpretar mesmo tem existência (mas não como um "ser": como um processo, um devir) como uma forma da vontade de poder, como um afeto.
    O surgimento das "coisas" é, pura e simplesmente, a obra daquele que representa, que pensa, que quer, que inventa. O conceito "coisa", ele mesmo, tanto quanto todas as propriedades. - Mesmo "o sujeito" é algo criado dessa maneira, uma "coisa", como todas as outras: uma simplificação para designar como tal a força que estabelece, inventa, pensa, em contraposição a todo estabelecer, inventar e mesmo pensar, tomados isoladamente. Portanto, designar a capacidade em contraposição a todo indivíduo: no fundo, o fazer reunido com referência a todo fazer que ainda se pode esperar (o fazer e a probabilidade de um fazer semelhante).

    As propriedades de uma coisa são efeitos sobre outras "coisas": se, pelo pensamento, se abstraem as outras "coisas", então uma coisa não tem propriedades
    isto é, não há nenhuma coisa sem outras coisas
    isto é, não há nenhuma "coisa em si".

                                                                 F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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sexta-feira, 13 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (9)

    A mancha podre do criticismo kantiano tornou-se pouco a pouco visível aos olhos mais grosseiros: Kant não tinha mais direito algum a diferenciar "manifestação" e "coisa em si" - ele havia se privado do direito de ainda continuar nessa velha e habitual maneira de diferenciar, à medida que indeferiu, como ilícita, a conclusão, a partir da manifestação, de uma causa da manifestação - segundo sua concepção do conceito de causalidade e de sua validade puramente-intrafenomenal: tal concepção, por outro lado, já pressupõe aquela diferenciação, como se a "coisa em si" não fosse apenas deduzida, mas sim dada.

    É evidente que nem coisas em si podem estar umas com as outras na relação de causa e efeito nem é empregável no interior de uma filosofia que crê em coisas em si e em manifestações. Os erros de Kant - ... De fato, o conceito de "causa e efeito", computado psicologicamente, decorre somente de uma maneira de pensar que, sempre e por toda a parte, crê que uma vontade atua sobre outra - que só acredita em ser vivo e, no fundo, somente em "almas" (e não em coisas). Na visão de mundo mecanicista (que é lógica, como também o é sua aplicação a espaço e tempo) aquele conceito reduz-se à fórmula matemática, mas antes, porém, designado, assinalado.

                                                                  F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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segunda-feira, 9 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (8)

    Para o combate do determinismo. - Do fato de que algo se suceda regularmente e de maneira calculável não resulta que isso aconteça necessariamente. Que uma quantidade de força se determine e se comporte em cada caso determinado de um único e mesmo modo, isso não a torna "vontade não livre". A "necessidade mecânica" não é nenhum fato: nós, primeiramente, a intrometemos pela interpretação no acontecer. Nós interpretamos o prestar-se a ser formulado do acontecer como consequência de uma necessidade dominante no acontecer. Mas do fato de que faça algo determinado não se segue, de modo algum, que o faça coagido. A coação não é absolutamente demonstrável nas coisas: a regra só prova que um e mesmo acontecer não é também um outro acontecer. Somente pelo fato de termos intrometido nas coisas, pela interpretação, sujeitos, "agentes", surge a aparência de que todo acontecer é a consequência de uma coerção exercida sobre sujeitos - exercida por quem? Por sua vez, por um "agente". Causa e efeito - um conceito perigoso à medida que se pensa algo que causa e algo sobre o que se atua.

A) A necessidade não é nenhum fato, mas sim uma interpretação.

B) Quando se compreendeu que o "sujeito" não é nada que efetiva, é só uma ficção, então se seguem diversas coisas.
    Somente segundo o modelo do sujeito é que inventamos o caráter de coisa e introduzimos a sua interpretação na confusão das sensações. Se não cremos mais no sujeito efetivante, então também cai a crença em coisas efetivantes, em efeito mútuo, em causa e efeito entre aqueles fenômenos a que chamamos coisas.
    Com isso, naturalmente, cai também o mundo dos átomos efetivantes: cuja suposição sempre ocorreu sob a pressuposição de que se necessita de sujeitos.
    Finalmente, cai também a "coisa em si". Mas compreendemos que o sujeito é fictício. A oposição "coisa em si" e "manifestação" é insustentável; com isso, cai por terra também o conceito de "manifestação".

C) Abandonamos o sujeito efetivante, e assim também abandonaremos o objeto no qual se efetiva. A duração, a igualdade consigo mesmo, o ser não são inerentes nem ao que é chamado de sujeito nem de objeto: são complexos do acontecer, aparentemente duráveis com referência a outros complexos - portanto, por exemplo, por uma diferença no ritmo do acontecer (quietude - movimento, firme -frouxo: todas essas são oposições que não existem em si e pelas quais, de fato, são expressas somente diferenças de graus, que aparecem, em uma certa escala óptica, como oposições. Não há oposições: somente a partir da lógica temos o conceito de oposições - e as transferimos, falsamente, às coisas.

D) Se abandonarmos os conceitos de "sujeito" e "objeto", abandonamos também o de "substância" - e consequentemente também as suas diferentes modificações, por exemplo: "matéria" ["materie"], "espírito" e outros seres hipotéticos, "eternidade e imutabilidade da matéria [Stoff]" etc. Estamos sem a materialidade.

Expresso moralmente: o mundo é falso. Mas, à medida que a moral, ela mesma, é um pedaço desse mundo, então a moral é falsa.
    A vontade de verdade é um tornar firme, um tornar verdadeiro durável, é uma supressão daquele caráter falso, uma reinterpretação do mesmo no ente [no que é, Seiende].
    Verdade, portanto, não é algo que existisse e que se houvesse de encontrar, de descobrir - mas algo que se há de criar e que dá o nome a um processo, mais ainda: a uma vontade de dominação que não tem nenhum fim em si: estabelecer a verdade como um processus in infinitum, um determinar ativo, não um tornar-se consciente de algo que fosse "em si" firme e determinado. Trata-se de uma palavra para a "vontade de poder".
    A vida está fundada na pressuposição de uma crença no durável e no retorno regular: quanto mais poderosa é a vida, tanto mais extenso há de ser o mundo previsível e como que entificado [conformado como o que é, seiend gemachte]. Logicização, racionalização, sistematização como meios auxiliares da vida.
    O homem projeta sua pulsão para a verdade, seu "fim", em um certo sentido, para fora de si, como mundo que é [seiende], como mundo metafísico, como "coisa em si", como mundo já existente [vorhandene].
    Sua necessidade como criador inventa já o mundo no qual trabalha, pressupõe-no: essa pressuposição, "essa crença" na verdade é o seu esteio.

    Todo acontecer, todo movimento, todo devir como um verificar-se de proporções de graus e de força, como uma luta...

    O "bem do indivíduo" é tão imaginário quanto o "bem da espécie": o primeiro não é sacrificado ao último; espécie [Gattung], considerada à distância, é algo tão fluído quanto indivíduo. "Conservação da espécie" [Gattung] é apenas uma consequência do crescimento da espécie [Gattung], isto é, da superação da espécie [Gattung] a caminho de uma espécie [Art] mais forte.

    Tão logo imaginemos alguém que é responsável pelo fato de sermos de tal ou qual maneira etc. (Deus, natureza), tão logo atribuamos a ele, portanto, a nossa existência, nossa felicidade e miséria como intenção, estragamos para nós a inocência do devir. Temos, então, alguém que, por meio de nós e conosco, quer alcançar alguma coisa.

    Que a aparente "finalidade" ("a finalidade superior a toda arte humana") é apenas a consequência daquela vontade de poder que transcorre em todo acontecer -
    que o tornar-se mais forte traz consigo ordenações que parecem semelhantes a um projeto-finalidade - 
    que os fins aparentes não são intencionais; o que acontece é que tão logo a supremacia [Übermacht] sobre um poder [Macht] menor seja alcançada, e o último trabalhe em função do maior, uma ordenação da hierarquia [des Rangs], da organização, há de despertar a aparência de uma ordenação de meio e fim.
    Contra a aparente "necessidade":
    - esta é somente uma expressão para o fato de que uma força não é também algo de outro.
    Contra a aparente "finalidade":
    - esta é somente uma expressão para uma ordenação das esferas de poder e seu jogo articulado.

                                                                  F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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quinta-feira, 5 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (7)

    Causa e efeito - "Explicação", dizemos; mas é "descrição" o que nos distingue de estágios anteriores do conhecimento e da ciência. Nós descrevemos melhor - e explicamos tão pouco quanto aqueles que nos precederam. Descobrimos múltiplas sucessões, ali onde o homem e pesquisador ingênuo de culturas anteriores via apenas duas coisas, "causa" e "efeito", como se diz; aperfeiçoamos a imagem do devir, mas não fomos além dessa imagem, não vimos o que há por trás dela. Em cada caso, a série de "causas" se apresenta muito mais completa diante de nós, e podemos inferir: tal e tal coisa têm de suceder antes, para que venha essa outra - mas nada compreendemos com isso. Em todo devir químico, por exemplo, a qualidade aparece como um "milagre", agora como antes, e assim também todo o deslocamento; ninguém "explicou" o empurrão. E como poderíamos explicar? Operamos somente com coisas que não existem, com linhas, superfícies, corpos, átomos, tempos divisíveis, espaços divisíveis - como pode ser possível a explicação, se primeiro tornamos tudo imagem, nossa imagem! Basta considerar a ciência a humanização mais fiel possível das coisas, aprendemos a nos descrever de modo cada vez mais preciso, ao descrever as coisas e sua sucessão. Causa e efeito: essa dualidade não existe provavelmente jamais - na verdade, temos diante de nós um continuum, do qual isolamos algumas partes; assim como percebemos um movimento apenas como pontos isolados, isto é, não o vemos propriamente, mas o inferimos. A forma súbita com que muitos efeitos se destacam nos confunde; mas é uma subitaneidade que existe apenas para nós. Neste segundo de subitaneidade há um número infindável de processos que nos escapam. Um intelecto que visse causa e efeito como continuum, e não, à nossa maneira, como arbitrário esfacelamento e divisão, que enxergasse o fluxo do acontecer - rejeitaria a noção de causa e efeito e negaria qualquer condicionalidade.

    A "ciência" (conforme é exercida hoje) é a tentativa de criar uma linguagem comum de signos para todos os fenômenos, visando à possibilidade de se calcular e, portanto, de dominar a natureza com mais facilidade. Todavia, essa linguagem de signos, que reúne todas as "leis" observadas, não esclarece nada. Ela é apenas uma espécie de descrição extremamente curta (abreviada) do acontecimento.

                                           F. Nietzsche ("A Gaia Ciência" af. 112 e fragmento póstumo) 

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segunda-feira, 2 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (6)

   Crítica do conceito "causa". - Não temos absolutamente nenhuma experiência de uma causa; computado psicologicamente, o conceito inteiro nasce da convicção subjetiva de que nós somos a causa, por exemplo, de que o braço se move... Mas isso é um erro: cindimo-nos, o agente do fazer, e fazemos uso desse esquema por toda parte - procuramos um agente para cada acontecer... o que fizemos? Cometemos o mal-entendido de tomar como causa um sentimento de força, uma tensão, uma resistência, um sentimento muscular que já é o começo da ação -: ou compreendemos como causa a vontade de fazer isso ou aquilo porque a ação segue-se a essa vontade -
   "Causa" não acontece, em absoluto: no tocante a alguns casos, em que nos pareceu dada, a partir dos quais a representamos como compreensão do acontecer, está provado o autoengano. Nosso "entendimento de um acontecer" consiste em que um sujeito inventado é responsabilizado pelo fato de que algo tenha acontecido e de como aconteceu. Congregamos no conceito "causa" o nosso sentimento de vontade, o nosso sentimento de "liberdade", o nosso sentimento de responsabilidade e a nossa intenção de um fazer: causa efficiens e finalis são, em sua concepção fundamental, uma e mesma coisa.
    Achávamos que um efeito seria explicado se fosse apontado um estado ao qual já fosse inerente. De fato, inventamos todas as causas segundo o esquema do efeito: conhecemos o último... Inversamente, somos incapazes de predizer de qualquer coisa o que ela "efetiva". A coisa, o sujeito, a vontade, a intenção - tudo é inerente à concepção de "causa". Buscamos coisas para esclarecer por que algo se modificou. Mesmo ainda o átomo é uma tal "coisa" e um "sujeito primordial" acrescentado pelo pensamento...
    Por fim, compreendemos que coisas, consequentemente também átomos, nada efetivam: pois eles não existem absolutamente... Compreendemos que o conceito causalidade é perfeitamente inútil. - A partir de uma sequência necessária de estados não se segue sua relação causal (- quer dizer, o fazer salta sua capacidade efetiva de 1 para 2, para 3, para 4, para 5). Não há causas nem efeitos. Linguisticamente, não sabemos nos libertar deles. Mas isso não tem importância. Se penso o músculo separado de seus "efeitos", então o neguei...
    Em suma: um acontecer não é nem efetivado nem efetivante. Causa é uma capacidade de efetivar inventada de acréscimo ao acontecer...
    A interpretação da causalidade é uma ilusão... Uma "coisa" é a soma de seus efeitos ligados sinteticamente por meio de um conceito, de uma imagem... Na realidade, a ciência esvaziou o conceito causalidade de seu conteúdo e o conservou como uma fórmula-metáfora na qual tornou-se, no fundo, indiferente de qual lado está causa ou efeito. Afirma-se que nos dois complexos de estados (constelações de força) as quantidades de força permanecem iguais.
    A calculabilidade de um acontecer não depende do fato de que uma regra seja seguida, ou uma necessidade seja obedecida, ou uma lei de causalidade seja projetada por nós em cada acontecer: - ela depende do retorno dos casos idênticos.
    Não há, como Kant sugere, um sentido de causalidade. A gente se espanta, se inquieta, quer algo conhecido a que possa ater-se... Logo que, no novo, algo de antigo nos é apontado, ficamos tranquilizados. O pretenso instinto de causalidade é apenas um temor diante do inabitual e a tentativa de descobrir nele algo conhecido - uma procura não por causas, mas pelo conhecido...    

    Se computarmos psicologicamente: o conceito de "causa" é o nosso sentimento de poder do assim chamado querer - nosso conceito de "efeito", a superstição de que o sentimento de poder é o poder mesmo, que mobiliza...
    Um estado, que acompanha um acontecimento e já é um efeito do acontecimento, é projetado como "razão suficiente" do acontecimento
    a relação de tensão de nosso sentimento de poder: o prazer como sentimento de poder: da resistência superada - trata-se de ilusões?
    se retraduzirmos o conceito de "causa" na única esfera que nos é conhecida da qual o retiramos: então não nos é imaginável nenhuma transformação na qual não haja uma vontade de poder.
    A mecânica mostra-nos apenas consequências e, além disso, em imagem (movimento é um discurso imagético).
    A gravitação mesma não possui nenhuma causa mecânica, uma vez que ela é primeiramente o fundamento para consequências mecânicas.
    A vontade de acumulação de força como específica para o fenômeno da vida, para a alimentação, a geração, a herança,
    para sociedade, Estado, hábito, autoridade
    não deveríamos poder supor essa vontade como causa motriz mesmo na química?
    e na ordem cósmica?
   não meramente constância de energia: mas economia maximal do gasto: de tal modo que o querer-vir-a-ser-mais-forte a partir de cada centro de força é a única realidade - não autopreservação, mas apropriação, tornar-se-senhor, vir-a-ser-mais, querer-vir-a-ser-mais-forte.
    O fato de a ciência ser possível deve demonstrar para nós um princípio de causalidade?
    "a partir das mesmas causas, mesmos efeitos":
    "uma lei permanente das coisas"
    "uma ordem invariável"
    porque algo é calculável, ele já é por isso necessário?
    se algo acontece de tal modo e não de outro, não há aí nenhum "princípio", nenhuma "lei", nenhuma "ordem"
    Quanta de força, cuja essência consiste em exercer poder sobre todos os outros quanta de força.
    Na crença na causa e no efeito esquece-se sempre o principal: o próprio acontecimento.
estabelece-se um agente, hipostasiou-se uma vez mais o feito.

    Podemos supor uma aspiração ao poder, sem uma sensação de prazer e desprazer, isto é, sem um sentimento de elevação e de decréscimo de poder?
    o mecanismo é apenas uma linguagem de sinais para o mundo interno de fatos de quanta de vontade combativos e superadores?
    todos os pressupostos do mecanicismo, matéria-prima, átomos, pressão, e impulso, assim como peso não são "fatos em si", mas interpretações com o auxílio de ficções psíquicas.
    a vida como a forma que nos é mais conhecida do ser é especificamente uma vontade de acumulação de força
    : todos os processos da vida tem aqui seu apoio
    : nada quer se conservar, tudo deve ser somado e acumulado
   A vida, como um caso particular: hipótese - a partir daí passar para o caráter conjunto da existência.
    : aspira a um sentimento maximal de poder
    : é essencial uma aspiração a um mais de poder 
    : aspiração não é outra coisa senão aspiração ao poder
   : o que há de mais baixo e mais interior continua sendo essa vontade: a mecânica é uma mera semiótica dessas consequências.

                                                                  F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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