segunda-feira, 27 de abril de 2015

Duas Visões

    Há uma visão que diz o seguinte: aquilo que há de sumamente bom e sumamente mau estão ambos fora do mundo, dispostos em uma realidade metafísica, são dois entes independentes entre si e do mundo, mas que agem no mundo. A partir dessa visão o homem adquire felicidade quando busca o que há de sumamente bom e nega o que há de sumamente mau. Mas há uma outra visão, e que ao meu ver é bem mais realista, que diz o seguinte: tudo que há de bom e mau estão ambos no mundo, são dois entes intimamente dependentes e complementares entre si e não só agem mas também são o próprio mundo incluindo nós mesmos. A partir dessa visão o homem adquire felicidade quando busca o que há de bom e compreende que o que há de mau faz parte nessa busca como um desafio aceito e necessário, haja vista que ao fazer parte do mundo, se o mau é negado então nós é que optamos ir ao seu encontro inevitavelmente, apenas por negar os desafios que o que é bom nos exige aceitar e vencê-los.

                                                                       Philip G. Mayer



                                                           

sábado, 18 de abril de 2015

"Ensaio Sobre a Cegueira" - Uma Crítica

A crítica abaixo é a segunda parte de um trabalho sobre o livro de Saramago que entreguei no curso de filosofia (a primeira é apenas o resumo da obra). Ao terminar de escrever essa crítica sobre o livro achei que ficou bastante boa para compartilhar por aqui seguindo a fórmula do Prof. Clóvis de Barros Filho o qual admiro muito e o tenho como grande inspirador: “se você vai ter que conviver com você mesmo até o fim da sua vida, é bom que se encante com o que faz”.
  
Boa leitura! 

Sentado em um restaurante pouco antes de escrever o “Ensaio Sobre a Cegueira”, a pergunta que passou por acaso pela cabeça de Saramago e que então lhe renderia um livro inteiro foi: “e se nós fôssemos todos cegos?” sendo que a resposta também já lhe viria imediatamente: “mas nós estamos todos cegos!”. Ao retratar ambientes onde todos estão cegos, o “Ensaio Sobre a Cegueira” é uma obra que mostra assim a deficiência e o vazio dos fundamentos éticos que elaboramos com o intuito de mostrarem-se efetivos para todas as situações cotidianas. Quando estamos cegos, não vemos ao outro, é necessário, portanto, confiar no outro, e nessa confiança necessária acabamos forçosamente por ter de virar nossa percepção primeiramente para nós mesmos. Ao ter de confiar no outro antes é necessário esclarecer dentro de si próprio o que se seria capaz de fazer sabendo que o outro está incapacitado de reagir como poderia e então na consciência disso poder também se precaver de possíveis atos maldosos por parte dos outros contra nós. Mais ainda, na trama de Saramago, quase todos ali (com exceção de uma mulher) estão cegos; ali cegos se relacionam com cegos, cegos buscam novas formas de poderem confiar um no outro, e de assegurarem tal confiança da melhor forma que puderem.

Em meio a esse cenário desolador há a mulher do médico, a única que não cegou, a única que vê num mundo de cegos, apenas muito depois ela conta ao seu grupo que enxerga, mas antes na quarentena tem de ficar calada, pois se todos na sua volta soubessem que ela via certamente seria cobiçada pela sua capacidade para ter de servir e ajudar a todos consumindo-a até a exaustão (e provando que não necessariamente “em terra de cego quem tem olho é rei”). A mulher do médico por enxergar em um mundo onde todos já estão cegos e onde todos já sabem que todos estão cegos, acaba por testemunhar cenas que revelam a fragilidade do ser humano nas suas múltiplas facetas, seja no seu questionamento e descaso pela higiene e pela estética própria, seja pelas suas condutas íntimas que agora perdem a vergonha, seja pelas condutas indecorosas em relação ao próximo, etc; a mulher do médico vendo essa realidade e não podendo fazer nada em relação a ela (pois caso contrário revelaria que vê e seria cobiçada por todos talvez até a morte) revela em sua figura talvez o grau máximo e a tensão da discrepância de visões sobre a realidade que cada um pode ter e, portanto, da perda total de uma possibilidade em constituir uma ética mais efetiva em prol de uma coletividade. Ainda sobre a mulher do médico, há uma passagem no livro que para mim foi a mais espetacular e quero relatar aqui: quando a mulher está na igreja com seu marido e todos na sua volta estão cegos além de todas as imagens da igreja estarem pintadas de branco na altura dos olhos e também todas as estátuas de santos incluindo o próprio Cristo estarem com vendas brancas nos olhos ela finalmente diz ao seu marido: “cada vez irei vendo menos, mesmo que não perca a vista tornar-me-ei mais e mais cega cada dia porque não terei quem me veja", sobre essa passagem que fala por si só não há o que comentar acerca da extrema veracidade, terror e beleza artística que expressa.

Em um mundo onde todos estão cegos como o autor retrata vão se revelando indelevelmente os afetos e as condutas oprimidas da natureza humana, afetos e condutas que antes devido aos olhos poderem enxergar os outros parecem que “não precisavam” enxergar ao seu próprio possuidor. Nesse sentido, Saramago nos denuncia e alerta com essa magnífica obra que se não estamos todos cegos para ver o outro, estamos sim todos cegos para ver a nós mesmos. Cuidamos dos outros, não cuidamos de nós mesmos, fiscalizamos os outros, não fiscalizamos a nós mesmos, somos capazes de tecer o exame mais completo sobre tudo em relação ao outro e ditar uma por uma as correções que o outro deve fazer, mas é interessante perceber que em relação a nós mesmos parece sempre salutar o cultivo da mais completa e insana cegueira. Em um mundo onde atualmente cada vez mais se fala em espiritualidade, onde sempre “o outro” parece estar em primeiro plano e não raro vemos nesse quadro uma desenfreada tentativa de controle e previsão sobre a conduta e o destino da vida alheia para o alívio momentâneo de angústias próprias, também parece haver, por outro lado, cada vez mais uma crescente falta de um olhar, um cuidado e um cultivo de si, e é exatamente por esse ângulo que Saramago flagra em seu texto o desespero do ser humano quando tem de se ver sozinho em um mundo que a todo o instante mostra seu potencial em nos deter e nos fazer retornar o olhar para o fundo de nós mesmos constatando inesgotavelmente a solidão de nossa singularidade, o recôndito último onde somente lá se finca o princípio fundamental da liberdade.   

                                                                  Philip G. Mayer                                                  


segunda-feira, 13 de abril de 2015

A Causalidade em Nietzsche (Final)

    Os físicos se encontram agora em uma posição unânime junto com os metafísicos quanto ao fato de que nós vivemos em um mundo da ilusão: felizes por não se ter mais a necessidade de ajustar as contas com um Deus quanto a isto, com um Deus de cuja "veracidade" se poderia chegar a ter pensamentos por demais estranhos. O elemento perspectivístico do mundo vai a uma dimensão tão profunda quanto acede hoje a nossa "compreensão" do mundo; e eu ousaria ainda estabelecê-lo lá onde o homem pode de maneira justa se abstrair da compreensão - tenho em vista lá onde os metafísicos estabelecem o reino do que aparentemente aponta para a consciência de si mesmo, para o que é compreensível para si mesmo, isto é, no pensamento. O fato de o número ser uma forma perspectivística, assim como o tempo e o espaço; o fato de nós não abrigarmos nem "uma alma", nem "duas almas" em nosso peito; o fato de os "indivíduos" não se deixarem mais deter como os "átomos" materiais, a não ser para a ação e o uso doméstico do pensar, e terem se volatilizado em um nada (ou em uma "fórmula"); o fato de nada vivo e morto poder ser adicionado conjuntamente, de dois conceitos serem falsos, de não haver três faculdades da alma, de "sujeito" e "objeto", "ativo" e "passivo", "causa" e "efeito" serem sempre apenas formas perspectivísticas, em suma, de a alma, o número, o tempo, o espaço, o fundamento, a finalidade - encontrarem-se uns com os outros e caírem uns com os outros. Supondo, porém, então, que não somos tão estultos assim, a ponto de avaliar a verdade, nesse caso o X, de maneira mais elevada do que a aparência; supondo que estamos decididos a viver - então não queremos permanecer insatisfeitos com esse caráter aparente das coisas e apenas insistir no fato de que ninguém permanece parado em relação a qualquer pensamento velado na apresentação dessa perspectividade: - algo com o que de fato quase todos os filósofos até aqui se depararam, pois eles tinham todos pensamentos velados e amavam suas "verdades" - naturalmente: nós precisamos levantar aqui o problema da veracidade: supondo que vivemos em consequência do erro, o que pode ser aí, afinal, a "vontade de verdade"? - Ela não precisaria ser uma "vontade de morte"? - Será que a aspiração dos filósofos e dos homens de ciência não seria talvez um sintoma de uma vida degradada e definhante, uma espécie de enfado da vida por parte da própria vida? Quaeritur [em latim no original: "a questão está lançada"]: e se poderia ficar aqui efetivamente pensativo.

                                                                 F. Nietzsche (fragmento póstumo)

Links - Anterior: A Causalidade em Nietzsche (18)
            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação)   

sábado, 11 de abril de 2015

A Causalidade em Nietzsche (18)

A Nova Concepção de Mundo

    1. O mundo persiste; ele não é nada que se torne, nada que passe. Ou antes: ele torna-se, passa, mas nunca começou a tornar-se e nunca cessou de passar - ele mantém-se em ambos... Vive de si mesmo: seus excrementos são o seu alimento.
    
    2. A hipótese de um mundo criado não deve nos preocupar nem por um momento. O conceito "criar" é hoje completamente indefinível, inexequível; é só uma palavra, ainda, uma palavra rudimentar do tempo da superstição; com uma palavra não se explica nada. A última tentativa de conceber um mundo que começa foi feita há pouco, de variadas maneiras, com ajuda de um procedimento lógico - sobretudo, como é de se adivinhar, com uma intenção teológica dissimulada.
    
    3. Quis-se, há pouco, de várias maneiras, encontrar uma contradição no conceito da infinitude temporal do mundo para trás: encontrou-se essa tal contradição, ao preço, claro, de confundir-se [a] cabeça com o rabo. A partir deste momento, nada pode me impedir de  dizer, contando para trás, "nunca chegarei a um fim": assim como posso contar, a partir do mesmo momento, para a frente, até o infinito. Somente se quisesse cometer o erro - prevenir-me-ei de fazê-lo - de igualar esse correto conceito de regressus in infinitum com um conceito, que não é absolutamente realizável, de um infinito progressus até agora, somente se estabelecesse a direção (para a frente ou para trás) como logicamente indiferente, iria poder agarrar a cabeça, este momento, como sendo o rabo: isso é coisa sua senhor Dühring! ...

    4. Nesse pensamento topei com pensadores anteriores: cada vez ele era determinado por outros pensamentos sub-reptícios (- na maioria das vezes teológicos, em favor do creator spiritus). Se o mundo, em geral, pudesse petrificar-se, secar, finar, tornar-se nada, ou se pudesse alcançar o estado de  equilíbrio, ou se tivesse qualquer fim que encerrasse em si a duração, a imutabilidade, o uma-vez-por-todas (resumindo, dito metafisicamente: se o devir pudesse desembocar no ser ou no nada), então esse  estado haveria de já ter sido alcançado. Mas ele não foi alcançado: donde se segue... Essa é a nossa única certeza, a que temos em mãos para servir de corretivo contra uma grande quantidade de hipóteses de mundo em si possíveis. Se, por exemplo, o mecanicismo não pode escapar da consequência de um estado final, que Thomson deduziu dele, então, com isso, o mecanicismo é refutado.

     5. Se o mundo pode ser pensado como grandeza determinada de força e como número determinado de centros de força - e toda outra representação permanece indeterminada e, consequentemente, inutilizável -, segue-se disso que ele há de perfazer um número de combinações computáveis no grande jogo de dados da sua existência. Em um tempo infinito, cada combinação possível haveria de ser alcançada em qualquer altura por uma vez; mais ainda: ela haveria de ser alcançada infinitas vezes. E então, entre cada "combinação" e seu próximo "retorno", todas as combinações possíveis haveriam de ter decorrido, e cada uma dessas combinações condiciona toda a sequência de combinações na mesma série, e assim seria, com isso, provado, um circuito de séries absolutamente idênticas: o mundo como circuito que já se repetiu com infinita frequência e que joga seu jogo in infinitum. - Essa concepção não é, sem mais, uma concepção mecanicista: pois se ela fosse tal, então não condicionaria um infinito retorno de casos idênticos, mas sim um estado final. Porque o mundo não alcançou esse estado, o mecanicismo há de valer, para nós, como hipótese incompleta e somente provisória.

    Sabeis vós também o que é para mim “o mundo”? Devo mostrá-lo em meu espelho? Este mundo: uma imensidão de força, sem começo, sem fim, uma firme, brônzea grandeza de força, que não se torna maior, não se torna menor, não se consome, só se transforma e, como um todo, é de imutável grandeza, um orçamento doméstico sem gastos e sem perdas, mas, do mesmo modo, sem crescimento, sem ganhos, encerrado pelo “nada” como por seu limite, nada que se desvaneça, nada desperdiçado, nada infinitamente extenso, mas sim, como força determinada, posto em um determinado espaço, não em um lugar que fosse algures “vazio”, antes como força em toda parte, como jogo de forças e ondas de força, ao mesmo tempo uno e vário, acumulando-se aqui e ao mesmo tempo diminuindo acolá, um mar em forças tempestuosas e afluentes em si mesmas, sempre se modificando, sempre refluindo, com anos imensos de retorno, com vazante e montante de suas configurações, expelindo das mais simples às mais complexas, do mais calmo, mais inteiriçado, mais frio ao mais incandescente, mais selvagem, para o que mais contradiz a si mesmo e depois, de novo, da plenitude voltando ao lar do mais simples, a partir do jogo das contradições de volta até o prazer da harmonia, afirmando a si mesmo ainda nessa igualdade de suas vias e anos, abençoando a si mesmo como aquilo que há de voltar eternamente, como um devir que não conhece nenhum tornar-se satisfeito, nenhum fastio, nenhum cansaço -: este meu mundo dionisíaco do criar eternamente a si mesmo, do destruir eternamente a si mesmo, este mundo misterioso da dupla volúpia, este meu “além de bem e mal”, sem fim, se não há um fim na felicidade do círculo, sem vontade, se não há boa vontade no anel que torna a si mesmo – vós quereis um nome para este mundo? Uma solução para todos os seus enigmas? Uma luz também para vós, ó mais esconsos, mais fortes, mais desassombrados, mais ínsitos à meia-noite? Este mundo é a vontade de podere nada além disso! E também vós mesmos sois essa vontade de poder – e nada além disso!

                                                                 F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

Links - Final: A Causalidade em Nietzsche (Final)
            Anterior: A Causalidade em Nietzsche (17)
            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação)

quinta-feira, 9 de abril de 2015

A Causalidade em Nietzsche (17)

    Se o mundo tivesse um fim, ele haveria de já ter sido alcançado. Se houvesse para ele um estado final não intencional, então este haveria de já ter sido, do mesmo modo, alcançado. Se ele fosse capaz, em geral, de um persistir, de um tornar-se petrificado, de um "ser", tivesse ele, em todo o seu devir, somente por um momento, essa capacidade do "ser", então ele teria chegado, mais uma vez, há muito tempo, ao fim do devir, também ao fim do pensar, ao fim do "espírito". O fato do "espírito" como um devir prova que o mundo não tem nenhum fim, nenhum estado final e é incapaz de ser. - O antigo hábito, porém, de em todo acontecimento pensar em fins e de, para o mundo, pensar em um Deus condutor e criador é tão poderoso que, ao pensador, custa esforço não pensar para si próprio a falta de finalidade do mundo, por sua vez, como uma intenção. Nessa inspiração - que, portanto, o mundo intencionalmente se esquiva de um fim e sabe até prevenir artificialmente o cair em um circuito - haverão de incorrer todos aqueles que gostariam de decretar para o mundo a capacidade da eterna novidade, isto é, gostariam de decretar tal coisa com relação a uma força final, determinada, imutavelmente da mesma grandeza , tal como é "o mundo" - a capacidade maravilhosa da infinita reconfiguração de suas formas e situações. O mundo, ainda que não tenha mais nenhum Deus, deve ser capaz da força criadora divina, da força de transformação infinita; ele deve proibir-se arbitrariamente de voltar para uma de suas antigas formas; não deve ter tão só a intenção, mas também os meios de guardar-se de toda repetição; deve controlar, portanto, em cada momento, cada um de seus movimentos para evitar fins, estados finais, repetições - e todas as demais consequências de um tal modo imperdoável e louco de pensar e querer. Esse é sempre ainda o velho modo religioso de pensar e querer, uma espécie de nostalgia de acreditar que em qualquer parte o mundo é igual ao velho Deus, querido, infinito, criador ilimitado - que em alguma parte, todavia, "o velho Deus ainda viva" - aquela nostalgia de Spinoza, que se exprime nas palavras "deus sive natura" [Em latim no original: "Deus ou natureza"] (ele sentiu mesmo "natura sive deus" -). Qual é, pois, o princípio ou fé com o qual se formula, o mais determinadamente, a virada decisiva, a preponderância alcançada agora pelo espírito científico sobre o espírito religioso inventor de deuses? Não é ele: o mundo, como força, não pode ser pensado como ilimitado? Pois ele não pode ser pensado assim - proibimo-nos o conceito de uma força infinita como sendo inconciliável com o conceito "força". Portanto - falta ao mundo também a capacidade para a eterna novidade.

    O princípio da conservação da energia exige o eterno retorno.

    Que uma situação de equilíbrio nunca tenha sido alcançada prova que ela não é possível. Mas, em um espaço indeterminado, haveria de ter sido alcançada. Do mesmo modo em um espaço esférico. A configuração do espaço há de ser a causa do movimento eterno, por fim, de toda "incompleteza".
    Prova de que "força", "repouso", "o permanecer igual a si mesmo" são coisas antagônicas. A medida da força (como grandeza) como fixa; sua essência [Wesen], porém fluida.
    Há que se despedir o "atemporal". Em um momento determinado da força é dada a absoluta condicionalidade de uma nova repartição de todas as suas forças: ela não pode permanecer plácida. A "mudança" pertence intimamente à essência, portanto, também a temporalidade: com o que, porém, mais uma vez, somente a necessidade de mudança é estabelecida conceitualmente.

                                                               F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

Links - Próximo: A Causalidade em Nietzsche (18)
            Anterior: A Causalidade em Nietzsche (16)
            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação)      

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A Causalidade em Nietzsche (16)

    Os físicos acreditam em um "mundo verdadeiro" à sua maneira: uma firme sistematização de átomos igual para todos os seres [Wesen] e com movimentos necessários, - de modo que, para eles, o "mundo aparente" se reduz ao lado acessível a cada ser [Wesen], segundo sua espécie, do ser [Sein] universal e universalmente necessário (acessível e também ainda preparado - feito "subjetivo"). Mas, com isso, enganam-se: o átomo, que postulam, é deduzido a partir da lógica daquele perspectivismo da consciência, - também ele próprio é, portanto, uma ficção subjetiva. Essa imagem de mundo que eles projetam não é, em absoluto, essencialmente distinta da imagem de mundo subjetiva: ela só é construída com sentidos estendidos pelo pensar, mas absolutamente com nossos sentidos... Por fim, sem sabê-lo, omitiram algo da constelação: justamente o necessário perspectivismo, em virtude do qual cada centro de força - e não somente o homem - constrói a partir de si todo o mundo restante, isto é, mede, apalpa, forma pela sua força... Esqueceram de computar essa força que põe perspectivas no "ser verdadeiro" ["wahre Sein"]... Dito na linguagem da escola: o ser-sujeito. Eles acham que este foi "desenvolvido", que veio de acréscimo - Mas o químico ainda o usa: tal é o ser-específico que determina o agir e reagir de tal e qual maneira, sempre de acordo.
    O perspectivismo é só uma forma complexa de especificidade. - Meu modo de ver é que cada corpo específico anseia por tornar-se senhor de todo espaço, por estender sua força (- sua vontade de poder:) e repelir tudo que obsta à sua expansão. Mas ele se depara continuamente com o mesmo  ansiar de outros corpos e termina por arranjar-se ("unificar-se") com aqueles que lhe são aparentados o bastante: - assim eles conspiram, então, juntos, pelo poder. E o processo segue adiante...

    Também no reino do inorgânico, um átomo de força só considera a sua vizinhança: as forças que estão longe se compensam. Aqui está fincado o núcleo do perspectivo, e o porquê de um ser [Wesen] vivo ser completamente "egoístico".

    Posto que o mundo dispusesse de uma quantidade de força, então é evidente que todo deslocamento de poder para qualquer lugar condiciona todo o sistema - portanto, junto com a causalidade de um após o outro dar-se-ia uma dependência de um junto ao outro e de um com o outro.

    Se a essência mais íntima do ser é vontade de poder, se prazer é sempre crescimento do poder, desprazer sempre o sentimento de não resistir e de não poder se tornar senhor: não podemos estabelecer, então, prazer e desprazer como fatos cardinais? A vontade é possível sem essas duas oscilações do sim e do não? Mas quem sente prazer?... Mas quem quer poder?... Perguntas absurdas: se a essência mesma é vontade poderosa e, consequentemente, sentimento de prazer e desprazer. Apesar disso: carece-se dos opostos, das resistências, ou seja, relativamente, das unidades abrangentes... Localizadas ---
    Se A exerce um efeito sobre B, então A só conquista a sua localização na cisão em relação a B.

    A única possibilidade de conservar de pé um sentido para o conceito "Deus" seria considerar Deus não como uma força propulsora, mas sim como um estado-máximo, como uma época... Um ponto no desenvolvimento da vontade de poder, a partir da qual se explicaria tanto o desenvolvimento seguinte quanto o desenvolvimento anterior até ele...
    - Considerada de modo mecanicista, a energia do conjunto do devir permanece constante; considerada economicamente, ela sobe até uma certa altura e desce a partir dela, de novo, num eterno circuito. Essa "vontade de poder" exprime-se na interpretação, na espécie do consumo de força - a transformação da energia em vida e a vida na mais alta potência aparecem, de acordo com isso, como meta. Em diferentes estágios do desenvolvimento, a mesma quantidade de energia significa algo diferente:
    - aquilo que na vida constitui o crescimento é sempre a economia, que sempre economiza e torna a calcular, a qual alcança sempre mais com sempre menos força... Como ideal, o princípio da menor despesa possível...
    - que o mundo não almeja um estado duradouro, isso é a única coisa que está provada. Consequentemente, de pensar-se o estado mais elevado do mundo de modo que ele não seja nenhum estado de equilíbrio...
    - a necessidade absoluta do mesmo acontecer em um curso do mundo, como em todos os outros na eternidade, não é um determinismo a respeito do acontecer, mas apenas a expressão do fato de que o impossível não é possível... que uma determinada força não pode ser nada de outro, a não ser esta determinada força; que ela não se libera de outro modo em uma força-resistência senão de acordo com sua força - acontecer e acontecer-necessariamente são uma tautologia.

                                                                  F. Nietzsche (fragmentos póstumos) 

            Anterior: A Causalidade em Nietzsche (15)
            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação)

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A Causalidade em Nietzsche (15)

Quanta de poder - Crítica do mecanicismo 

    Afastemos aqui os dois conceitos populares, "necessidade" e "lei": o primeiro estabelece no mundo uma falsa coerção; o segundo uma falsa liberdade. "As coisas" não se comportam regularmente, não se comportam segundo uma regra: não há coisa alguma (- isso é uma ficção), elas também não se comportam de maneira alguma sob uma coerção da necessidade. Não se obedece aqui: pois o fato de algo ser tal como é, tão forte, tão fraco, não é a consequência de uma obediência ou de uma regra ou de uma coerção...
    O grau de resistência e o grau de superpoder - é disso que se trata em todo acontecimento: se nós, para o nosso uso doméstico do cálculo, sabemos expressar isso em fórmulas "legais", tanto melhor para nós! Mas não estabelecemos nenhuma moralidade no mundo com o fato de fingirmos que elas são obedientes -
    Não há nenhuma lei: cada poder retira a cada instante a sua derradeira consequência. A calculabilidade baseia-se precisamente no fato de que não há nenhum mezzo termine.
    Um quantum de poder é designado pelo efeito que exerce e ao qual ele resiste. Falta a adiaforia: que seria em si pensável. É essencial uma vontade de violentação, assim como se proteger contra as violentações. Não autoconservação; cada átomo atua em direção ao ser como um todo - o ser todo é alijado pelo pensamento, quando se elimina essa irradiação das vontades de poder. Por isso, eu o denomino um quantum "vontade de poder": com isso, expressa-se o caráter que não pode ser eliminado da ordem mecânica, sem eliminar a si mesmo.
    Uma tradução desse mundo de efeitos em um mundo visível - um mundo para os olhos - é o conceito de "movimento". Aqui está sempre subentendido que algo é movido - sempre se pensa nesse contexto, seja na ficção de um conglomerado de átomos, seja mesmo em sua abstração, no átomo dinâmico, em algo que atua. Isto é, não escapamos ainda do hábito para o qual nos desencaminham os sentidos e a linguagem. Isoladamente, sujeito, objeto, um agente, em relação ao ato, o fazer e aquilo que ele faz: não esqueçamos que isso designa uma mera semiótica e nada real. A mecânica como uma doutrina do movimento é já uma tradução na linguagem sensorial do homem.
    
    Nós necessitamos de unidades para podermos calcular: por isso, não se deve supor que haja tais unidades. Nós retiramos os conceito de unidade de nosso conceito de "eu" - nosso mais antigo artigo de fé. Se nós não nos considerássemos unidades, nós nunca teríamos cunhado o conceito "coisa". Agora, relativamente mais tarde, estamos amplamente convencidos de que nossa concepção do conceito de eu não é em nada responsável por uma unidade real. Para conservarmos o mecanismo do mundo teoricamente funcionando, portanto, temos sempre de inserir a cláusula que determina até que ponto conduzimos o mundo com duas ficções: com o conceito do movimento (retirado de nossa linguagem sensorial) e com o conceito do átomo = unidade (proveniente de nossa "experiência" psíquica): ele tem por pressuposto um preconceito sensorial e um preconceito psicológico.
    O mundo mecanicista é imaginado tal como o olho e o tato apenas imaginam um mundo (como "movido"). 
    de tal modo que ele pode ser calculado - que unidades surgem de maneira fictícia 
   de tal modo que unidades causais surgem de maneira fictícia, "coisas" (átomos), cujo efeito permanece constante (- transposição do conceito falso de sujeito para o conceito de átomo).
    Conceito de número
    Conceito de coisa (conceito de sujeito)
    Conceito de atividade (cisão entre ser causa e efeitos)
    Movimento (olho e tato)
    : que todo efeito é movimento
    : que, onde há movimento, algo é movido 
    Portanto, fenomênico é: a imiscuição do conceito de número, do conceito de sujeito, do conceito de movimento: temos nossos olhos, nossa psicologia sempre ainda aí.
    Se eliminarmos esses ingredientes: então não resta nenhuma coisa, mas quanta dinâmicos, em uma relação de tensão com todos os outros quanta dinâmicos: cuja essência consiste em sua relação com todos os outros quanta, em sua "atuação" sobre eles - a vontade de poder, não um ser, não um devir, mas um páthos, é o fato mais elementar, a partir do qual apenas se obtém um devir, um atuar... 
    a mecânica formula manifestações sucessivas, e, além disso, de maneira semiótica, com os meios de expressão sensoriais e psicológicos (que todo efeito é movimento; que onde existe movimento, algo é movido): ela não se refere à força causal... 

                                                                F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

            Anterior: A Causalidade em Nietzsche (14)
            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação)