quarta-feira, 29 de julho de 2015

Sobre Deus e a Razão

    Deus existe? Se o concebemos de alguma maneira então ele existe, mas até que ponto ou de que forma ele influenciaria nossa realidade? Aí depende da maneira como nos relacionaríamos com ele e, particularmente falando, a minha resposta para esta segunda pergunta é: se Deus existe ou não, atribuir a ele alguma influência sobre o mundo por algum meio lógico é uma tarefa simplesmente impossível. Portanto, de que forma me considero um agnóstico? Tenho amigos religiosos que certamente já devem ter pensado de mim: "o Philip é um materialista que ama as coisas do mundo", como se as coisas do mundo ou suas supostas essências fossem o que são na eternidade do tempo “coisas em si”. Ledo engano, não amo as coisas do mundo, pois se não andaria apavorado com a fugacidade própria delas, não acredito em "coisas" nem em "essência de coisas", tudo isso é fugaz, de permanência totalmente inverificável. Amo, isso sim, é o mistério das coisas do mundo, no que a cada instante uma coisa se resoluciona com a certeza de sua instabilidade característica e eterna no universo. Essa noção do real por si só já me preenche inteiramente a tal ponto que se torna indiferente a mim conceber que haveria ou não alguma força diversa de tudo que condicionaria toda essa nossa realidade insondável.

    Ao contrário, essa vontade de que tenha de existir uma força do tipo é que me parece uma falta de compreensão do mundo em que estamos que se traduziria em ou o indivíduo querer livrar-se das dores dele mediante a esperança, o que o torna covarde para melhorar a condição de sua vida enquanto a tem, ou então querer controlar totalmente as resoluções das coisas no mundo a fim de vagar pela terra mais tranquilamente; duas tarefas que possuem em comum a negação da realidade que nos cerca. Se por meio da imaginação podemos vislumbrar uma metamorfose rápida das coisas na superfície da terra e assim julgar que é praticamente automático entender que haveria uma força externa condicionante dessa metamorfose, tomamos então a postura arrogante e ingênua de conceber que tudo se transforma, menos o observador, isso é, nós que observamos de fora da realidade essa transformação das coisas dispostos em um lugar em que realmente somente um Deus poderia estar. A vontade de que tenha de existir Deus como uma força causal e condicionante de todas as coisas no fundo não passa de uma vontade propriamente de ser Deus. 

    Por outro lado tem-se também a concepção de Deus como um causador condicionante absoluto de toda a realidade permanecendo ele mesmo um mistério insondável pela nossa razão lógica, de modo que ao constatarmos a cada passo a falseabilidade da razão nos restaria unicamente a fé no criador e controlador de todas as coisas. Que a razão tenha sido falseada pelos tempos e que não tenhamos muita esperança e nem sentido em tentarmos elabora-la de forma mais perene isso também é um fato, mas de modo algum isso tornar-se-ia uma justificativa para que a abandonássemos em prol de cultivar uma fé pura e cega num divino misterioso em que não nos caberia sequer saber suas intenções para nós e o mundo. Portanto, o que é preferível, a fé cega em uma força (ou forças) infinitamente misteriosa ou a tentativa, mesmo que falha, de construir um mundo melhor no continuum da vida por intermédio de nossa razão enquanto a possuímos em vida?

                                                                           Philip G. Mayer 


quarta-feira, 15 de julho de 2015

Conhecimento Atrela Moral

    O conhecimento sobre a realidade é uma construção cujo os alicerces se constituem em uma crença ou um conjunto de crenças (paradigma). Quando um conhecimento teórico é posto em prática ele necessariamente atrela junto a si uma conduta moral (o livre arbítrio entre poder optar por realizar esta ou aquela ação). Sistemas teóricos que visam descrever nossa realidade podem fornecer uma visão de mundo maravilhosa e instigante que nos convida a agir a partir daquilo que tomamos como conhecimento verdadeiro, é exatamente aí que descobrimos então o quanto que uma crença sobre a realidade (e aqui incluo as ciências além da religião, do espiritismo e qualquer outra filosofia que almeje uma descrição verídica do que é o real) torna-se perfeitamente uma justificativa para os atos mais bárbaros do ser humano. Costumo dizer que o problema existencial mais grave do homem não é de natureza epistemológica, mas sim ética, viver bem ou cada vez melhor esta muito mais relacionado com a forma em que lidamos dia a dia com nós mesmos e o outro do que com algum conhecimento em que poderíamos confiar ser mais verdadeiro. 

                                                                                Philip G. Mayer