domingo, 8 de maio de 2016

Neurose e Verdade

     Como contribuição à bela palestra de Christian Dunker (link do youtube: https://www.youtube.com/watch?v=SWvjHPszmqw) e partindo de uma perspectiva filosófica, gostaria de propor uma hipótese que acredito ser um fundamento comum que propiciaria as neuroses, ou seja, qual seria seu terreno fértil – a condição para – pois não é de meu intuito e nem conhecimento falar da noção de neurose propriamente, mas apenas com base na explanação de Dunker apresentar uma hipótese filosófica do que seria uma condição prévia e necessária à mente do indivíduo que poderá vir ou não a desenvolver uma possível neurose.

Precisamente, a condição para o surgimento da neurose seria uma pressuposição que o desdobramento cultural da ética cristã remanescente somada ao legado do ‘cogito’ cartesiano infiltrou no conhecimento de senso comum do ocidente: pressupor de um lado a existência de um sujeito subjetivo que raciocina sobre si mesmo e o mundo, e de outro, um suposto si mesmo e mundo objetivamente verdadeiros que devem poder se revelar ao longo do tempo sempre os mesmos para si e a todos. Quando se crê que existe uma verdade já dada e que então bastaria somente conhecê-la isso traz grandes consequências na maneira com que nos relacionamos com as impressões e sensações que obtemos sobre tudo.

Utilizando-me do exemplo citado por Dunker do sofrimento do monstro de Frankenstein, o zumbi que tem consciência de que há algo a ser investigado sobre si mesmo tem como pressuposto a estrutura mental de fundo cristão-cartesiano que relatei antes. Assim, um sujeito munido de tal pressuposto ao se deparar com o gigantesco acumulado de conhecimento que a cultura produziu e produz pela história, sente-se impotente para investigar as supostas verdades ocultas que crê existir, logo, como uma autodefesa que cria, torna-se um cético radical a priori sobre o potencial do conhecimento humano (aliás, essa vem a se tornar uma das justificativas para a manutenção do estado de ignorância generalizado que se vê atualmente), essa postura cética a priori produz a consequência de que quaisquer sensações que o sujeito percebe tornam-se para ele apenas um acumulado de eventos sem nexo, uma massa disforme da qual ele é um mero expectador solitário na intimidade de suas ideias que não estabelecem mais conexão alguma com tudo o que sente. Daí o estado neurótico descrito na metáfora do “zumbi”: o indivíduo impotente por crer em uma suposta verdade que se esconderia no acúmulo do conhecimento humano no qual, devido a esse próprio acúmulo em demasia, não crê mais ser capaz de apreender e compreender a verdade. Eis aí também muito da causa do desprezo que se vê na atualidade pelos livros, pelo estudo, pela aprendizagem, e, em última análise, pela própria razão humana.

A sociedade ocidental desde muito tempo se desenvolveu sobre a base do primado da verdade como causa e efeito de uma esperança na conquista de um paraíso onde não fosse necessário mais qualquer esforço de responsabilidade por parte do indivíduo, porém, à medida que o conhecimento cresce, a utopia paradisíaca torna-se cada vez mais distante. Isso porque o que o conhecimento faz não é nos aproximar cada vez mais de uma verdade objetiva, mas multiplicar cada vez mais verdades subjetivas.

Uma solução?

Antes de tudo, é necessário algo que infelizmente é difícil aceitar devido ao peso de toda cultura que carregamos nas costas já há alguns séculos: compreender que a realidade e toda a verdade é antes uma invenção humana porque deve passar necessariamente por uma forma de linguagem. Uma linguagem é um sistema simbólico onde cada símbolo representa de modo puramente convencional uma prática de uso de um objeto ou um objeto no mundo, sendo este último sempre reduzido às suas práticas de uso.

- Um objeto não é nada mais que a representação de um passado de práticas de uso dele próprio por onde somente daí pode obter o sentido de sua referência ou símbolo em uma linguagem. Disso, infere-se que toda realidade, por sua vez, é alicerçada em uma complexa rede de práticas sociais. Tais práticas são normas que no decorrer do tempo e da história os indivíduos estabelecem, recebem e transferem entre si em suas relações sociais, para o fim de que possam entender-se mutuamente sobre o modo em que deverão se utilizar das coisas. Tais normas, por último, visam unicamente a autopreservação da espécie humana. -

Exatamente na maneira em que um objeto é utilizado funda-se propriamente a realidade, seja como uma herança social-histórica, seja como uma criação do sujeito. Na capacidade criativa sobre o uso que se faz das coisas configura-se toda a realidade subjetiva do sujeito, ou seja, tudo aquilo que para ele é uma representação das coisas ainda não reconhecida pelo público – sua criação – e é somente no diálogo com aquilo que já é público (e todo diálogo é público, seja uma conversa, uma leitura, etc.) que conquistará tal reconhecimento. A subjetividade somente pode expressar-se em liberdade mediante o reconhecimento do público, e para isso, deve ser capaz de apresentar suas justificativas, o público as espera, pois também anseia libertar-se de suas amarras ou então apenas abafará os subversivos que ameaçarem suas conquistas e o legado da cultura. A criação de novas práticas constroem novos meios de vida e realidade, por conseguinte, enriquecem o público libertando-o de velhas normas, velhas práticas que fazem velhos objetos e verdades submetendo todos a sua lei. Mas como é possível a criação de novas práticas? Como justificá-las? O caminho é unicamente a busca pelo próprio conhecimento. Conhecer é legitimar a si mesmo no mundo. O que é exposto aqui não é nada mais que o próprio fim do conhecimento: libertação. Quando se descobre porque algo é como é, descobre-se como ele poderia ser – e também como deve ser.

Portanto, o ato de narrar ou expressar-se de qualquer outro modo para si mesmo ou outrem, constitui uma revelação de suas próprias práticas que lhe determinaram e determinam. Práticas constituintes do sentido de objetos. Objetos constituintes de verdades. O ato de expressar o que se sente não é de modo algum um tipo de verdade cuja qual seria uma espécie de revelação definitiva do que já estaria dado e subjacente à condição do sujeito – esta não há! – mas um ato de criação contínua que se realiza a todo o instante a partir do sujeito. Já no ato dessa criação o indivíduo é propriamente determinado pelo que criou. A criação propõe uma determinação a qualquer interlocutor presente no qual inclusive pode ser ele mesmo. Assim, verdade no mais fundo é determinação, normatização das práticas de uso que fazemos das coisas. Práticas implícitas em cada palavra pronunciada, cada gesto, cada acepção – em tudo isso há uma longa história da cultura por de trás. História que nos priva de nossa liberdade na mesma medida em que não a conhecemos.

No neurótico, porém, a verdade teria o sentido da velha religião, a ideia de um ente esclarecedor revelável a todos como a luz a iluminar a ignorância humana, quando no fundo as premissas de sua percepção e os fundamentos de sua realidade é que deveriam ser investigadas no mais urgente, sendo apenas o conhecimento a lhe dar poder para isso. A verdade como um Deus para o neurótico... Porém, esse Deus está morto, eis aí então uma boa hora para abandoná-lo de vez e iniciar agora uma investigação acerca daquilo que restou de si mesmo: seus próprios vícios. Vícios os quais até o instante lhe pareceram meras obviedades, e que, no entanto, são puro e simplesmente sua própria verdade revelada no tempo que transcorre.
                                                                  
                                                                     Philip G. Mayer